EFE/MIGUEL GUTIÉRREZ
EFE/MIGUEL GUTIÉRREZ

Chefe de direitos humanos da ONU pede acesso à Venezuela para avaliar situação no país

'O que vocês estão escondendo?', questionou Zeid Al-Hussein, alto comissário da organização; chanceler venezuelano nega que exista crise humanitária no país

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 06h55
Atualizado 09 Março 2018 | 08h40

GENEBRA - A cúpula da ONU pede acesso ao território venezuelano para poder constatar em primeira mão a situação no país que, segundo as agências especializadas, vive uma crise humanitária. Na semana passada, o governo venezuelano declarou, durante um evento na ONU, que a crise humanitária não existia.

+ Na Venezuela, falta sangue nos hospitais públicos

+ Entidade da ONU alerta para uso político de programas de assistência na Venezuela

"Pretende-se fazer com que o mundo acredite que na Venezuela há uma crise humanitária, um velho truque unilateralista", disse o chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza.

+ Cúpula da PDVSA recebia presentes de luxo

"Se, então, não há uma crise, deixe-nos entrar para constatar a situação", disse o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Al-Hussein. Há pelo menos quatro anos, o representante das Nações Unidas vem solicitando acesso ao governo de Caracas, sem sucesso. "Desde o começo de meu mandato, pedimos entrada", admitiu ele. "O que vocês estão escondendo? O que é que vocês não querem que seja visto?", perguntou.  

Nesta semana, a ONU voltou a alertar para possíveis crimes contra a humanidade na Venezuela e apontou que não há condições para que uma eleição livre possa ocorrer.  Zeid disse ainda que assistência aos mais necessitados está sendo instrumentalizada politicamente e a entrega de materiais e alimentos está sendo alvo de condicionantes políticos. 

Para ele, o Conselho de Direitos Humanos precisa votar a criação de uma comissão de inquérito contra a Venezuela com o mandado de investigar abusos e crimes. A proposta, porém, tem sido bloqueada em razão do apoio de Caracas a governos africanos, China, Rússia e Cuba.

"A situação é profundamente alarmante", disse Zeid. "Má nutrição aumentou de forma dramática pelo país, afetando especialmente as crianças e os mais velhos, e relatos nos indicam que os programas de assistência do governo estão frequentemente condicionados por considerações políticas", apontou.

"Estou profundamente alarmado com a possibilidade de que crimes contra a humanidade estejam sendo cometidos e pela erosão das instituições democráticas", disse o comissário da ONU.

"O princípio fundamental da separação de poderes foi severamente comprometido, já que a Assembleia Nacional Constituinte continua a concentrar poderes irrestritos", afirmou. "Os dois principais partidos de oposição foram desqualificados pelo Conselho Eleitoral e a coalizão de oposição foi invalidada pela Corte Suprema."

Diante deste cenário, o representante da ONU não vê condições adequadas para a realização de eleições nacionais. "Tenho sérias preocupações de que, diante do contexto, não existam condições mínimas para eleições livres", disse. O governo de Nicolás Maduro adiou a votação para 20 de maio, mas garantiu que ela ocorrerá.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.