Chefe militar paquistanês luta pelo cargo

Pressionado após ação americana que matou Bin Laden, comandante do Exército se afasta de cooperação com EUA

New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2011 | 00h00

O chefe das Forças Armadas do Paquistão luta para salvar seu emprego diante da fúria que tomou conta dos generais e oficiais subalternos desde o ataque americano que matou Osama bin Laden. Segundo fontes próximas ao caso, o general Ashfaqe Parvez Kayani, comandante do Exército desde 2007, enfrenta um grande descontentamento pelo que é considerada uma relação muito próxima dos militares paquistaneses com os EUA.

Um golpe por parte dos oficiais, embora improvável, não está descartado. O Exército paquistanês é basicamente dirigido por um grupo de 11 comandantes de alto escalão, que decidem por consenso. Quase todos, senão todos, estariam próximos de uma ruptura. Se o general for destituído, os EUA deverão encontrar pela frente um comandante intransigente e antiamericano.

Para restaurar a reputação das suas Forças Armadas e garantir sua própria sobrevivência, Kayani visitou mais de uma dezena de quartéis, refeitórios e outras instituições nas semanas que se seguiram ao ataque que matou Bin Laden. Seu objetivo era conseguir apoio dos soldados rasos, na maior parte antiamericanos.

No fim de maio, durante um longo encontro na Universidade da Defesa Nacional, após o discurso de Kayani, um oficial levantou-se e contestou a política de cooperação com os EUA. "Se eles não confiam em nós, podemos confiar neles?", questionou Shaukaut Qadri, brigadeiro da reserva, que fez um relato da reunião. "Não podemos", respondeu Kayani.

De acordo com autoridades americanas e paquistanesas, em resposta à pressão das tropas, o general tornou-se um parceiro cada vez mais resoluto diante das delegações americanas.

No geral, afirmam autoridades americanas e paquistanesas, a relação tem sido mais de competição e litígio do que de cooperação. Kayani disse ao diretor da CIA, Leon Panetta, em visita a Islamabad no fim de semana, que o Paquistão não atenderá o pedido da agência americana para realizar operações independentes no país.

Na semana passada, um longo comunicado dos 11 chefes do alto comando militar, após sua reunião regular, deixou nítida a crescente hostilidade contra os EUA, apesar de o país continuar sendo seu maior aliado, fornecendo uma ajuda de cerca de US$ 2 bilhões ao ano.

Segundo o comunicado, cujo objetivo foi restaurar o apoio do Exército e da população, o treinamento americano no Paquistão foi mínimo e acabou. "É preciso deixar claro que o Exército jamais aceitou assistência na área de treinamento por parte dos EUA, salvo para uso de novas armas e para patrulhas de fronteira." Ainda segundo a nota, os ataques de aviões não tripulados - os drones - "não são aceitáveis em nenhuma circunstância".

"Permitir que os drones continuem operando a partir do Paquistão é politicamente insustentável", disse uma fonte que se encontrou com Kayani. Também como parte do mecanismo de sobrevivência, o general poderá ordenar que as operações americanas com drones parem totalmente.

O fornecimento de comida e água para a base usada pelos drones já foi suspenso, segundo uma fonte dos EUA. Aos poucos, segundo a fonte, estão "estrangulando a aliança", tornando as coisas mais difíceis para os americanos no Paquistão.

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