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Chefes do Estado Islâmico detestam França e Egito

O governo do Cairo é tido pelo EI como um regime traidor e Paris está na linha de frente dos bombardeios aos islamistas na Síria

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2016 | 06h52

Um avião desaparece na madrugada entre Paris e Cairo. Levava 66 pessoas, 15 das quais, francesas. A queda está envolta em mistério: foi repentina, quase na vertical. Inexplicável. Não havia relato até esta sexta-feira de pedido de socorro dos pilotos.

Nenhuma reivindicação de autoria de ataque foi feita, mas a possibilidade de atentado está na cabeça de todos. Explicação: Egito e França são sem dúvida os dois países mais detestados pelos chefes do Estado Islâmico (EI).

Aos olhos do EI, o Egito é um país árabe, mas traidor. O marechal Sissi derrubou o presidente islâmico Mohammed Morsi. Desde então, governa com mão de ferro e arma poderosamente seu país com ajuda da França, que vende ao Cairo todo tipo de equipamento (aviões Rafale, navios Mistral, fragatas Fremm). O país luta contra o EI e a Al-Qaeda, na Península do Sinai, mas também no restante do Egito.

Ao atacar um avião egípcio é a indústria turística do país que é atingida. Como consequência de outros atentados, o turismo, essencial para a economia egípcia, já cambaleia. E a economia está sufocada.

A França também está na linha de frente contra o EI. Seus aviões bombardeiam os jihadistas na Síria e no Iraque. Além disso, a França é um país vulnerável às teses do EI, pelo menos nas fileiras radicalizadas da periferia das grandes cidades. Há muitos franceses nos batalhões do EI na Síria.

Na verdade, não há um dia sem que François Hollande e seu primeiro-ministro se lembrem dessas evidências. A França está em perigo. O chefe da inteligência francesa, Patrick Calvar, normalmente mudo, resolveu se manifestar. A seus olhos, não há dúvida de que a França, bem antes dos EUA, muito distantes, seja o alvo principal do EI.

Ora, depois de dois anos gloriosos, hoje o grupo extremista está na defensiva. Os bombardeios americanos, franceses e russos, as intervenções dos “conselheiros” militares americanos ou franceses, desferiram violentos golpes contra o EI. Talvez ele tente compensar seu recuo em campo multiplicando as ações contra países europeus, com a França em primeiro lugar.

Por isso, a França permanece em estado de alerta desde os ataques de 13 de novembro – em Saint-Denis e Paris – e inúmeros soldados patrulham sem cessar ruas e pontos estratégicos (estações, aeroportos, ministérios, monumentos, igrejas).

Um evento começará em 11 de junho: a Eurocopa, grande festa do futebol que vai até 10 de julho. Muitos estrangeiros virão a Paris e outras grandes cidades francesas. Calcula-se em 2,5 milhões o número de espectadores. Perderia o EI essa chance de semear a desordem e a morte?

Tudo sob controle, garante o governo. Nunca precauções tão abrangentes foram tomadas. Nada a temer. É verdade, mas...

Um exemplo de “mas...”: o governo, empenhado em tirar o máximo de proveito da Eurocopa, prevê a criação de áreas para torcedores no centro das grandes cidades, onde eles poderão se reunir durante os jogos. Uma dessas áreas será embaixo da Torre Eiffel, com estimativa de 80 mil pessoas. Dá para imaginar o brilho nos olhos dos extremistas: a Torre Eiffel, um dos mais famosos monumentos do mundo, e 80 mil pessoas a seus pés, vulneráveis...

“Loucura”, gritam os inimigos de Hollande, tendo à frente os jornalistas do Figaro. Como não concordar com eles? São essas as angustiantes questões que a França enfrenta após a estranha tragédia do voo Paris-Cairo. É verdade que a hipótese de atentado não foi oficializada. Pode ter ocorrido simplesmente uma pane. Admitamos, porém, que, no quadro acima descrito, uma matança por parte de um dos muitos soldados do EI que cruzam a Europa e, principalmente, a França, não teria nada de fantasioso.

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