Chega de meias medidas

O Irã precisa responder por suas atividades nucleares ilícitas e desmantelar seu programa atômico

Ray Takeyh*, O Estado de S.Paulo - The Washington Post

17 de outubro de 2013 | 02h04

As grandes potências estão retomando seus esforços para resolver a questão nuclear do Irã. As expectativas são altas, já que o Irã agora é governado por pragmáticos que querem pôr fim ao isolamento. Apesar de boa parte do foco internacional ter sido no presidente Hassan Rohani, as decisões cruciais serão tomadas pelo Conselho Supremo de Segurança. A composição desse organismo diz mais do que o discurso de Rohani sobre a política externa iraniana.

O conselho é preenchido por linhas-duras que passaram suas carreiras nos serviços militar e de segurança. O presidente é Ali Shamkhani, integrante da Guarda Revolucionária e ex-ministro da Defesa que teve papel essencial em todas as decisões de segurança nacional importantes desde o começo da teocracia.

O vice é um obscuro oficial da Guarda Revolucionária, Ali Husseini-Tash, que esteve envolvido em deliberações nucleares no Irã. Esses novos personagens eram críticos do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad. Eles sentem que, à medida que o Irã aumenta seu poder, precisa se apresentar como um ator mais ponderado, impondo limites à expressão de sua influência e acatando certas normas globais. Por exemplo, o Irã condenou o uso de armas químicas na Síria e declarou sua disposição de lidar construtivamente com a questão nuclear.

A despeito de seu interesse em diplomacia e da adoção de uma linguagem mais moderada, Shamkhani e seus consultores acreditam que o Irã deve reclamar seu papel hegemônico. Com o desalojamento de inimigos históricos no Afeganistão e no Iraque, e com as transições instáveis no mundo árabe, eles sentem que este é um momento propício para o país reivindicar a liderança regional.

Teerã recebeu uma rara oportunidade de se alçar como uma potência dominante no Golfo Pérsico e um Estado fundamental no Oriente Médio. É secundário se a sua avaliação das tendências regionais está correta, já que tais percepções condicionam sua abordagem da política internacional.

Os conservadores alçados recentemente à direção do conselho também acreditam que o Irã precisa de capacidade nuclear para aumentar sua influência. Como observou Husseini-Tash, em 2006, "o programa nuclear é uma oportunidade para adquirirmos uma posição estratégica e consolidarmos nossa identidade nacional".

Eles reconhecem, porém, a necessidade de oferecer medidas de construção de confiança para uma comunidade internacional incrédula. Tudo isto não pretende sugerir que o Irã esteja propenso a suspender seu programa nuclear. No entanto, eles estão mais abertos ao diálogo. Ademais, eles ressaltam que um Irã razoável pode aplacar temores americanos sobre seu desenvolvimento nuclear sem ter de abandonar o programa.

Apesar da retórica abrandada, o novo regime deve continuar afirmando seus direitos nucleares. O país pretende continuar apoiando a Síria, o Hezbollah e grupos palestinos que rejeitam um acordo com Israel. Teerã persistirá com suas táticas repressivas em casa e continuará a negar os direitos humanos fundamentais ao povo iraniano.

Este é um governo que procurará negociar um acordo na questão nuclear testando os limites das proibições das grandes potências. Washington não deve ceder a tais concepções. Nesta semana, os EUA estão entrando em negociações numa posição forte.

A economia do Irã está definhando com as sanções. A população está insatisfeita, pois os laços entre Estado e sociedade estão rompidos desde a Revolução Verde, de 2009. A União Europeia ainda é cética sobre o Irã, desconfiança que a ofensiva de charme de Rohani atenuou, mas não extinguiu. Diplomatas aliados podem usar como reforço nas negociações a ameaça de novas sanções e de uso de força militar israelense.

Por isso, é hora de as grandes potências adotarem uma posição firme com o Irã. É tarde demais para meias medidas. Teerã precisa responder por suas atividades nucleares ilícitas e fazer concessões irreversíveis que degradem permanentemente sua capacidade de reconstituir seu programa atômico. Qualquer coisa menos do que isso é uma oportunidade perdida.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Ray Takeyh é membro do Council on Foreign Relations.

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