AP Photo/Christian Bruna
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Chegada de imigrantes aumenta ressentimentos na Grã-Bretanha

Boston, cidade de 67 mil habitantes, vivenciou um aumento de seis vezes nos moradores estrangeiros entre 2001 e 2011, e a população não britânica parece ter crescido nos últimos cinco anos

Kimiko de Freytas-Tamura - The New York Times, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2016 | 12h23

BOSTON, INGLATERRA - Trabalhadores vestindo roupas amarelo-fluorescente caminhavam por fileiras de pés de couve, parecendo detentos em uma prisão agrícola. Depois de um longo dia de trabalho, que paga o mínimo por hora, eles voltam para um acampamento improvisado cercado por arame farpado e dispositivos de segurança instaladas pelo empregador: a Staples Vegetables, que abastece supermercados da Grã-Bretanha e da Europa. Os apanhadores, cerca de mil, precisam ter as digitais conferidas antes de entrar no recinto.

Muitos desses homens e mulheres são da Europa Oriental. Eles estão legalmente na Grã-Bretanha segundo o princípio de liberdade de movimento e trabalho da União Europeia, que permite que qualquer cidadão de uma nação do bloco trabalhe em qualquer outro país-membro.

Sua presença, no entanto, causou ansiedade e ressentimento em Boston, cidade no litoral leste da Inglaterra que passou a simbolizar o crescente antagonismo do país em relação à imigração. O aumento do número de estrangeiros se mostrou uma questão central para os eleitores no referendo de 23 de junho que irá determinar se a Grã-Bretanha permanece na União Europeia.

"Existe um número grande demais. Eu aceitaria ser mais pobre para ter a cidade de volta", afirmou Peter Chamberlain, 61 anos, sentado em um banco e observando dois poloneses discutindo calorosamente em sua língua nativa.

Boston, cidade de 67 mil habitantes, vivenciou um aumento de seis vezes nos moradores estrangeiros entre 2001 e 2011, e a população não britânica parece ter crescido nos últimos cinco anos, segundo dados oficiais. O fluxo rápido tem causado problemas nos setores de habitação, empregos, policiamento, hospitais e escolas, que estão tendo dificuldades para encontrar mais professores de inglês.

Em função da ansiedade de cidades como Boston, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, fez da imigração uma questão central em sua tentativa de renegociar o relacionamento da Grã-Bretanha com a União Europeia em fevereiro.

Incapaz de alterar o princípio de liberdade de movimento, Cameron garantiu uma restrição aos benefícios que os trabalhadores de outros países da União Europeia podem reivindicar na Grã-Bretanha durante quatro anos. Ele espera que a medida temporária torne a nação menos atraente para europeus que procuram emprego – ou pelo menos demonstre aos eleitores britânicos que ele está respondendo aos seus anseios.

As iniciativas de Cameron para limitar benefícios, no entanto, estão sendo enfraquecidas por um plano apresentado por George Osborne, ministro da Fazenda, de apresentar um salário digno nacional levemente mais alto do que o atual salário mínimo, medida que muito provavelmente incentivaria mais pessoas a se mudarem para a Grã-Bretanha. A partir de abril, os trabalhadores de 25 anos ou mais receberão pelo menos 7,20 libras (US$10,30) por hora, quase o dobro do salário mínimo nos 22 países da União Europeia que contam com um.

Defensores da saída da Grã-Bretanha do bloco dizem que os empregos no país vão para imigrantes dispostos a trabalhar por baixos salários e atraídos pela oportunidade de reivindicar benefícios sociais relativamente generosos. Cifras do Departamento para Trabalho e Aposentadorias, no entanto, mostram que apenas 7,2% dos 5,1 milhão de pessoas no país que solicitam os benefícios não são cidadãos britânicos.

Em Boston, imigrantes europeus e moradores britânicos dizem que estão acompanhando de perto o debate sobre a possível saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

A comunidade sente "incerteza, um pouco de medo com a situação", disse o padre Stanislaw Kowalski, da Igreja Católica de Santa Maria e capelão da comunidade polonesa, que também é imigrante. Alguns imigrantes demoram em tomar uma decisão sobre suas vidas porque temem precisar voltar ao país de origem, acrescentou Kowalski.

Vários imigrantes dizem concordar com a perspectiva de Cameron segundo a qual a imigração tinha que ser controlada. Para eles, o problema era o sistema de bem-estar social generoso do país.

"A Grã-Bretanha precisa ajustar o sistema", declarou Gregory Pacho, imigrante de origem polonesa e italiana que é dono de uma frota de táxis. "É agradável quando alguém segura sua mão, e o sistema encoraja as pessoas a não trabalhar."

Os moradores de Boston que querem ver a Grã-Bretanha fora da União Europeia afirmam estar preparados para abrir mão dos benefícios econômicos que o bloco oferece para retomar o controle sobre a imigração. Se a Grã-Bretanha sair da União Europeia, ela poderia perder o acesso total aos mercados europeus dos quais dependem empresas agrícolas como as de Boston.

"Fico extremamente frustrado pelo fato de termos as mãos atadas" pela União Europeia, disse Yvonne Stevens, vereadora local e integrante do Partido de Independência do Reino Unido, que lidera uma das duas coalizões que defendem a saída do bloco.

Yvonne declarou que gostaria de ver a liberdade de movimento substituída por algo similar ao sistema de pontuação australiano que exige determinadas capacidades e qualificações do migrante para ter direito ao visto.

Não está claro se Boston atrairia trabalhadores qualificados com um sistema semelhante. Historicamente, a cidade tem se valido de mão de obra barata, que é necessária se os consumidores britânicos quiserem frutas e verduras a preço baixo.

E como o trabalho manual, a colheita de frutas tem pouca concorrência, e o ressentimento está crescendo em relação a funções e salários. Segundo essa linha de raciocínio, o excesso de oferta de mão de obra barata limitou o poder de negociação dos trabalhadores. Na agricultura, por exemplo, o salário mínimo para os colhedores - 6,20 libras por hora - se tornou uma barreira.

John Ebton, 75 anos, que trabalhou nessa área durante 24 anos, se lembra com carinho da época em 1975, quando os colhedores de verduras ganhavam três libras por hora, perto de 23 libras por hora nos valores de hoje. "Eu tinha a segurança de ter um emprego no dia seguinte", ele declarou.

Muitos bostonianos concordam com o argumento de Ebton. Contudo, julgar os efeitos negativos da imigração com essas comparações fáceis é ingenuidade, disse Christian Dustmann, diretor do Centro para Pesquisa e Análise de Migração da University College de Londres.

Sem a imigração, os trabalhadores britânicos de Boston poderiam ter perdido de formas diferentes: as plantações locais poderiam ter mecanizado parte do seu trabalho ou fechado as portas, e os supermercados poderiam ter importado produtos mais baratos. "Existem muitos empregos que não teriam existido sem a imigração", ele disse.

A oferta de mão de obra também atraiu mais empresas à região. O agronegócio que se vale unicamente da colheita manual agora cresceu para incluir o processamento e a embalagem. "Muitos dos empregos administrativos no processamento de alimentos acabaram na Grã-Bretanha", garantiu Dustmann.

Romeno que até pouco tempo atrás trabalhava colhendo couve-flor, ​Miroslav disse que sua função o fazia se sentir descartável. "Você é igual a um pneu. Quando o pneu não serve mais, ele é jogado fora", avaliou, pedindo para não ter o sobrenome citado para evitar a raiva local.

Mesmo assim, passado um ano, ele economizou o suficiente para virar taxista. Antes tipógrafo, sua ambição é abrir uma empresa aqui. Miroslav contou esperar que a Grã-Bretanha continuasse na União Europeia.

"Aqui, posso usar minha mente. Aqui, tenho a oportunidade de usar a minha cabeça para abrir um negócio e investir na Grã-Bretanha."

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