Chegada de refugiados leva conflito para Damasco

Histórias de sofrimento e injustiças contagiam os moradores da capital e regime já não tem mais o controle total da cidade

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2012 | 03h06

A revolução que mergulhou grande parte da Síria num banho de sangue está se encrustando de tal modo na capital ultimamente que põe em dúvida se o regime do presidente Bashar Assad tem mesmo controle da cidade que é supostamente seu baluarte.

Uma razão é a multidão que inundou Damasco nos últimos meses, buscando refúgio dos combates em outras partes do país. A ONU calcula em 500 mil o número total de pessoas desalojadas na Síria e, embora não se saiba direito quantos desses tomaram o rumo da capital, a população da cidade aumentou perceptivelmente, com famílias se amontoando em quartos de hotéis, alugando apartamentos baratos e se instalando nas casas de parentes.

Elas trouxeram consigo histórias de sofrimento e injustiça, contagiando os damascenos com parte da raiva que sustenta há cerca de 16 meses o levante em outras regiões.

"A presença dos refugiados nos fez viver a tragédia e não apenas ouvir sobre ela ou ler sobre ela como num livro", disse Samer, 30 anos, um ativista com base em Damasco que acolheu uma família de dez pessoas do bairro de Bayuadeh em Homs, em março. Um deles, uma mulher, chorava enquanto lhe mostrava as fotos de seu filho armazenadas no seu celular, ele lembrou. O filho havia sido despedaçado pelos disparos de artilharia.

"Fiquei sem saber o que dizer e senti que era eu quem precisava de ajuda naquele momento", disse Samer, que, como outros entrevistados, pediu para ser identificado somente pelo nome por razões de segurança.

Muitos dos que buscam proteção são mulheres e crianças cujos maridos e pais foram mortos ou que ficaram para lutar. Mas chegam também ativistas com seu entusiasmo para protestar contra o regime.

Mas Damasco ainda não testemunhou o tipo de protestos em grande escala que convulsionaram muitas outras cidades sírias. Muitos ativistas atribuem isso à população minoritária em Damasco, de cristãos e alauitas filiados aos xiitas, muitos dos quais ainda sustentam o regime e temem a influência crescente do que é percebido como um levante em grande parte sunita. Comparada com lugares como Homs, Hama e Deir al-Zor, onde os bombardeios e batalhas são comuns, Damasco permanece relativamente calma. Mas o governo já não pode assegurar que a capital é um oásis de tranquilidade ou uma maioria silenciosa de moradores é leal ao regime.

A cidade parece hoje repleta de ódio e pronta para explodir. Há grafites contra o regime rabiscados nas paredes em quase todos os bairros. À noite, o som do bombardeio de subúrbios que caíram sob o controle rebelde ecoa pelas ruas, perturbando o sono de ricos e pobres.

Os protestos relâmpagos estão crescendo até em alguns dos bairros mais elegantes da cidade. E recentes greves de comerciantes nos famosos bazares de Damasco acabaram com a percepção de que eles ainda apoiam o governo. / THE WASHINGTON POST

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