Chegada de tropas não alivia tensão

Governo do Peru envia mais soldados para regiões devastadas, mas população ainda teme saques noturnos

Roberto Lameirinhas, LIMA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 00h00

Quatro dias depois do devastador terremoto de 8 graus na escala Richter, que deixou pelo menos 510 mortos e 1.500 feridos, a gestão da situação de emergência do governo peruano começava ontem, finalmente, a funcionar. Embora a falta de eletricidade continue mantendo a tensão entre os desabrigados num nível bastante alto, o deslocamento de mais de mil homens da Polícia Nacional e do Exército para as áreas de Pisco, Chincha e Ica - as mais afetadas pelo tremor - melhorou a situação de segurança e conteve a maior parte das tentativas de saque.Na madrugada de ontem, especialistas em resgate espanhóis, do grupo Bombeiros Sem Fronteiras, tiveram de suspender os trabalhos de busca de cadáveres sob os escombros em Pisco depois de serem alvos de disparos feitos por desconhecidos. As autoridades da Defesa Civil explicaram que os autores desses disparos eram comerciantes que montaram guarda ante as ruínas de seus estabelecimentos para enfrentar os saqueadores. Na escuridão de Pisco, não conseguem distinguir os resgatistas dos ladrões.Um tremor secundário de 5,7 graus, que atingiu ontem o sul do Peru, matou um menino de 12 anos na localidade de Guadalupe, no Departamento de Ica. Segundo o correspondente do jornal El Comercio, ele foi atingido pela parede de sua casa. FORNECIMENTO DE LUZEm Lima, um diretor da agência reguladora dos serviços de eletricidade - Organismo Superior de Investimentos em Energia e Mineração -, falando sob condição de anonimato, disse ao Estado que a situação em Pisco não se normalizará antes do fim da semana. "O tremor destruiu as torres das linhas de transmissão e esse é um tipo de reparo que leva tempo", afirmou. Em Cañete, cidade a 170 quilômetros de Lima também atingida pelo tremor, os danos à rede elétrica foram menores e a situação já está normalizada em 98%. Mas em Ica, apenas 40% das casas têm luz.Água potável, alimentos, medicamentos, roupas e cobertores passaram ontem a chegar com maior freqüência às cidades semidestruídas. Em Pisco, onde 85% das casas desabaram e a situação dos desabrigados é mais dramática, foram instalados dez "assentamentos humanos", que passaram a abrigar mais de 20 mil pessoas em barracas de campanha. Muitos moradores, no entanto, temendo os saques, resistem em abandonar os escombros de suas casas.O comandante do Exército peruano, general Edwin Donayre, descartou a possibilidade de o governo decretar um toque de recolher, como pedem as associações de comércio das áreas afetadas. "As forças de segurança mantêm totalmente o controle da situação e não há necessidade de medidas mais drásticas", disse.Mas o colunista do jornal La República Mirko Lauer, um dos mais importantes jornalistas peruanos, afirma que as autoridades consideram a decretação até mesmo de uma lei marcial, caso a agitação promovida pelos grupos de saqueadores prejudique a distribuição da ajuda. "Se, entre os desabrigados, o governo continuar sendo visto como o bandido do filme e a revolta da população converter-se em agitação, não haverá como evitar uma medida de força", afirmou. Na capital, Lima, porém, a ação do presidente Alan García em resposta à tragédia recebeu a aprovação de 72% da população, segundo pesquisa do Instituto Apoyo. As medidas de García, que instalou na Base Aérea de Pisco um gabinete de emergência, recebeu elogios também de seu antecessor, Alejandro Toledo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.