"Cheia de ruído e fúria e contada por um idiota"

Três navios de guerra japoneses saíram na manhã desta sexta-feira da base naval de Sasebo em direção ao Oceano Índico para a primeira missão de apoio da marinha japonesa, desde 1945, a forças combatentes no exterior. É um acontecimento: nos termos de sua Constituição, o Japão renunciou ao uso da força, mas emendas legislativas permitiram negligenciá-la. Não é preciso dizer que alguns vizinhos do Japão não gostariam que esse país se tornasse uma potência militar. Mas há algo mais surpreendente, mais significativo. Acontece que o terremoto provocado pelas torres demolidas em Nova York e a contra-ofensiva da ?coalizão? Bush já modificaram muitas coisas no panorama mundial (Estados ameaçadores reabilitados, acariciados, paparicados, financiados ou ainda restabelecimento de relações desafiantes da Rússia e dos Estados Unidos etc.). Mas com a decisão do Japão, o que as torres de Nova York acabam simbolicamente é com a II Guerra Mundial. Entre as tropas da ?coalizão? Bush não há somente marinheiros japoneses. Há 3.900 soldados alemães (gesto que suscitou a cólera dos ?Verdes?). E também a Itália junta suas forças à ?coalizão?. Assim, as três nações que formaram, sob o chamado Eixo, a mais formidável fábrica do nada de todos os tempos, sob o estímulo de Hitler, colocam-se meio século depois do fim da infâmia nipo-nazista na órbita das nações democratas e que defendem a liberdade. Pearl Harbor, Estalingrado, os ossuários da Normandia, o apocalipse dos V2 sobre Londres, a ?ponte do rio Kwai?, tudo isso foi um sonho, uma fumaça, uma ilusão, um ?efeito especial?? Não. Foi uma realidade. Aliás, como a História gosta muito do ?piscar de olhos?, mesmo fúnebre, os três navios japoneses que vão juntar-se à armada americana saíram do porto de Sasebo, que fica perto de Nagazaki ? ?Hiroshima, meu amor?. Dirão que os três países do ?Eixo? foram mais sensíveis que outros à tragédia que varre o mundo nesse momento? Sem dúvida, não existe a menor relação entre as ideologias de Hitler e do fundamentalista louco do Afeganistão ? outras etnias, outras posições geográficas, outros meios e outras religiões. Resta, no entanto, um ponto comum entre os nazistas e Bin Laden: a mesma reverência apaixonada ao nada, o mesmo gosto da morte, da morte em massa (pelo menos, no que se refere ao Japão e à Alemanha, pois a Itália é um caso especial). Com Hitler, a morte em massa foi a dos judeus. No Japão, o ódio pelo Ocidente suscitou o apelo aos ?camicases?, o que os fanáticos de Nova York, obviamente, nos fizeram lembrar. Mesmo que os camicases japoneses, não-voluntários e não-religiosos, tenham feito um jogo bem diferente do que foi feito pelos ?fanáticos por Deus?. Outra consideração: diante da demência de Bin Laden, o Ocidente encontra suas solidariedades (se, pelo menos, admitirmos que o Japão, país do extremo oriente da Ásia, optou há dois séculos pela via do Ocidente e foi reconstituído e democratizado em 1945, após sua destruição pelo general americano Mac Arthur). Portanto, Ocidente contra Oriente... Desse ponto de vista, é preciso se alegrar com o êxito de Bush na coalizão, (com dor e riscos), em reagrupar alguns países muçulmanos, aliás muitas vezes contra a opinião pública (Paquistão, Sudão...). Na verdade, a presença desses países muçulmanos provoca um curto-circuito na idéia que Bin Laden se esforça obstinadamente, diabolicamente, em impor: a de uma ?guerra de religiões?. Acrescentaremos rapidamente uma terceira observação sobre as frivolidades da História: os que ?vitrificaram? Nagazaki há meio século tornam-se amigos dos ?vitrificados?, enquanto os que incendiaram milhões de judeus se dirigem contra os que, hoje, espatifaram seus aviões para acabar com uma civilização. Todos aqueles que têm um pouco de familiaridade com a História conhecem bem essas lições: a Inglaterra e a França lutaram durante 500 anos, de Joana d?Arc a Napoleão, para em seguida se tornarem aliadas do ?acordo político de 1904? (?Entente cordiale?). A França somente conseguiu sair das garras nazistas graças ao espírito de De Gaulle e de Adenauer de marcharem de mãos dadas e formarem a espinha dorsal da Europa. É infindável a enumeração dessas amizades perdidas e reencontradas, desses ódios reprimidos sob as cinzas do tempo, dessas inimizades que terminam em festas. A História foi sempre assim. Como dizia Shakespeare? ?Cheia de barulho e de furor, e contada por um idiota.? Leia o especial

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