Chen, bem-vindo à América

Além de poupar sua família de enorme sofrimento, a partida de dissidente cego chinês para os Estados Unidos pode ajudar a luta pelos direitos humanos na China

É EX-LÍDER DOS PROTESTOS DE 1989 NA PRAÇA DA PAZ CELESTIAL, WANG, DAN, THE NEW YORK TIMES, É EX-LÍDER DOS PROTESTOS DE 1989 NA PRAÇA DA PAZ CELESTIAL, WANG, DAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2012 | 03h01

Quando eu era jovem, fui preso duas vezes e sentenciado duas por ter sido um líder dos protestos pela democracia na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989, e um participante no movimento pelos direitos civis na China. Também fui libertado duas vezes, o que me deu duas oportunidades - uma em 1993 e outra em 1998 - de fazer a escolha entre deixar a China e permanecer. Na primeira vez, escolhi ficar. Na segunda, escolhi partir para os EUA.

Nunca lamentei ter feito a segunda escolha, e agora quero me dirigir a Chen Guangcheng em Pequim e lhe dizer que não estará cometendo um erro se fizer o mesmo. Além de poupar sua família de um enorme sofrimento, sua partida da China agora não poderia prejudicar seus esforços para encorajar mudanças no seu país. Em minha experiência pessoal, ser um exilado só ajudou.

Foi em fevereiro de 1993 que fui libertado pela primeira vez da prisão. Menos de uma semana depois, policiais vieram para me dizer que eu poderia deixar a China e estudar na América. Mas eu os mandei embora, pois queria continuar lutando pela democracia e os direitos humanos na China - o mesmo raciocínio que diplomatas americanos inicialmente ouviram nesta semana de Chen, o defensor de direitos humanos cego que fugiu de um confinamento ilegal e procurou refúgio na Embaixada dos EUA em Pequim.

Eu tinha 24 anos na época. Fazia apenas quatro anos do massacre na Praça da Paz Celestial, e o ambiente político na China era muito hostil. Mas eu senti que não poderia esquecer aqueles estudantes e outros cidadãos que haviam sacrificado suas vidas pela liberdade em 4 de junho de 1989. Sabia que se permanecesse seria, muito provavelmente, atirado de novo na prisão.

Mas não queria desistir. Ainda queria fazer alguma coisa pelo meu país, que eu amo profundamente, e queria fazê-lo na própria China.

Por isso, fiquei. Critiquei o governo, contatei outros ativistas pela democracia, publiquei petições de protesto. E, como era esperado, fui preso de novo em 1995. Após um longo interrogatório, fui sentenciado a 11 anos de prisão.

Três anos depois, o presidente Bill Clinton estava prestes a visitar a China e manifestou a esperança de que as autoridades chinesas poderiam empreender alguma ação para melhorar os direitos humanos. Em 17 de abril de 1998, os encarregados da prisão de Jinzhou na Província de Liaoning (onde Liu Xiaobo, agraciado com o Nobel, está preso atualmente) perguntaram se eu não estaria disposto a partir para os EUA.

Desta vez eu disse sim. A razão era simples: eu o fiz pela minha família. Quando fui preso da primeira vez, tinha 20 anos. Foi, é claro, um pesado ônus para minha família, mas eles me apoiaram. Sabiam que eu estava fazendo a coisa certa, que estava fazendo um sacrifício pelo meu país. Mas pagaram um alto preço por seu apoio. A dor e as dificuldades que eles sofriam me entristecia. Sabia que se escolhesse ficar na China, seria elogiado internacionalmente; pensei que poderia até ter ganhado um Prêmio Nobel da Paz. Mas resolvi que bastava. Minha família havia sofrido demais e chegara a hora de recompensá-los.

Assim, em abril de 1998, escolhi partir. Cheguei aos EUA e me tornei um aluno de pós-graduação em Harvard. Hoje, a história de Chen me faz recordar a minha. Nos últimos anos, sua mulher, filho e filha sacrificaram sua possibilidade de levar vidas normais porque apoiavam sua luta. Eles viviam assustados todos os dias. Agora eles podem ter uma oportunidade de partir para os EUA e levar uma vida segura e pacata.

Compreendo e respeito as razões para ele ter hesitado em sair. Talvez pense que não poderia mais tomar parte na luta pelos diretos civis na China, ou que sua influência diminuiria se vivesse no exterior. Mas se ele pensa dessa maneira, está sendo demasiado pessimista.

Vivo no exílio há 14 anos, e aprendi que há muitas maneiras de exercer influência na China do exterior. Apesar do grande desejo de voltar, não me arrependo do meu tempo aqui. Estudei em Harvard, leciono em universidades de Taiwan e dos EUA e continuo a publicar regularmente sobre acontecimentos na China. Minha obra circula e é lida amplamente na China.

A internet e a globalização mudaram o próprio conceito de exílio. Elas eliminaram a possibilidade de isolar Los Angeles, onde vivo, de Pequim, minha cidade natal, e a Província de Shandong, onde Chen está agora.

Será isso tão diferente de ficar? Se estivesse na China em prisão domiciliar, agora, como Chen nos dois últimos anos, eu teria tido que depender da internet para contatar o mundo exterior de qualquer forma.

Em vez disso, pude fazer um doutorado. Foi difícil, mas valeu o esforço. Aprendi muito de história que não me era ensinado na China e, mais importante, aprendi em primeira mão o que significa viver numa sociedade democrática, experimentar o modo de vida americano e ver os EUA enfrentando os próprios problemas.

Se puder retornar à China algum dia para trabalhar pela mudança, essas experiências se mostrarão valiosas. Muitos líderes da China nos últimos cem anos, incluindo o próprio Sun Yat-sen, passaram algum tempo vivendo, estudando e trabalhando no exterior.

Finalmente, há mais de 30 milhões de chineses no exterior que têm laços profundos e de obediência com a China. Durante o exílio, pude interagir livremente com essa comunidade e, assim espero, ter desempenhado um papel de construir uma ponte. Viajei extensamente pelos EUA, Europa, Austrália e Taiwan. Tomei parte em mais de mil seminários, debates e palestras. Meu objetivo tem sido claro: garantir que as pessoas não esqueçam o movimento pela democracia da Praça da Paz Celestial de 1989 e a repressão militar que se seguiu.

Creio que estou obtendo algum sucesso, pois recebo e-mails quase todos os dias de jovens na China que cruzaram a "Grande Muralha Eletrônica" para entrar na minha página do Facebook e me pedir detalhes.

Chego a acreditar que o exílio não é um peso, mas um bem.

Quer ele compartilhe ou não esse sentimento, espero que Chen Guangcheng saiba que apesar de a democracia e os direitos humanos de um país serem de grande importância, também o são o amor e o afeto de uma família. Se ele permanecer na China poderá ser uma figura heroica. Mas ninguém tem o direito de pedir que sua família pague o alto preço que enfrentaria.

E se ele escolher partir agora, ninguém teria uma boa razão para criticá-lo. Ele não está desistindo da luta. Poderá até mesmo estar ajudando mais.

Também espero que ele saiba que, mesmo se partir, todos nós que somos exilados retornaremos algum dia à China. Espero encontrá-lo nos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Mais conteúdo sobre:
Visão Global

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.