Cheney desfere críticas ao governo russo

Em um pronunciamento que não agradou o governo russo, o vice-presidente americano, Dick Cheney, acusou nesta quinta-feira o presidente Vladimir Putin de restringir os direitos civis dos cidadãos e disse que "nenhum interesse legítimo pode ser conseguido" através da utilização dos recursos energéticos como instrumentos de extorsão."Na Rússia de hoje, os oponentes das reformas estão tentado converter os avanços da última década", discursou Cheney durante uma conferência com líderes do leste europeu. No passado, a região vivia sob opressão dos soviéticos, e agora está submetida às sombras da Rússia.A fala de Cheney também comemorou o progresso das nações do leste europeu em direção à democracia após o colapso da União Soviética, em 1991. O vice-presidente exortou a região a continuar no mesmo caminho."A unidade democrática da Europa garante a paz na Europa", ele disse. Cheney criticou, no entanto, as reformas promovidas dentro da própria Rússia: "Na religião, imprensa e em grupos de advocacia, o governo têm restringindo injustamente o direito das pessoas."Outras ações "têm sido contraproducente e pode começar a afetar as relações com outros países", disse, mencionando as questões energéticas e as disputas nas fronteiras."Nenhum interesse legítimo pode ser atingido quando o óleo e o gás são utilizados para intimidar ou chantagear", disse."E ninguém pode justificar ações que prejudiquem a integridade territorial de um vizinho, ou interfira nos movimentos democráticos desses países."Primeiras críticasEsses são os comentários mais fortes jamais feitos por uma autoridade americana em relação à liderança de Putin. A maior parte da administração Bush tem tentado abafar, pelo menos publicamente, qualquer diferença com o governo de Moscou.Em resposta, o ex-presidente Mikhail Gorbachev acusou Cheney de se intrometer nos assuntos internos russos."O conteúdo do discurso de Cheney parece uma provocação e interfere nos assuntos internos da Rússia", disse Gorbachev, segundo a agência de notícias Interfax.O chefe do comitê do parlamento russo para as ex-repúblicas soviéticas, Andrei Kokoshin, disse que os comentários de Cheney são subjetivos e não refletem a situação real nas ex-repúblicas soviéticas."Os Estados Unidos precisam lidar com uma Rússia totalmente diferente hoje, uma Rússia que recuperou sua real soberania em várias áreas e está perseguindo um lugar na arena mundial que coincida com seus próprios interesses nacionais", disse Kokoshin.Conselho de SegurançaSegundo uma reportagem publicada nesta quinta-feira no site do New York Times, funcionários da administração americana teriam atribuído os comentários de Cheney a uma mudança nas relações entre os dois países, que têm se tornado tensas e que devem esquentar ainda mais nos próximos meses. As declarações vêm à tona em um momento de confrontação internacional entre os dois países, que discutem as medidas a serem tomadas em relação ao programa nuclear iraniano. Os EUA precisam do apoio da Rússia para que o Conselho de Segurança aplique sanções contra Teerã. Ainda segundo o NYT, as críticas podem complicar essa relação, mas refletem a impaciência de Washington em relação a posição russa.Já para o líder ultranacionalista russo, Vladimir Zhirinovsky, Cheney tem por objetivo desacreditar Moscou para o próximo encontro do G-8 (os 7 países mais ricos mais a Rússia), que acontecerá em julho em São Petersburgo."Eu tenho certeza de que Cheney expressa a opinião de apenas uma parte da elite política dos EUA", disse Zhirinovsky. Gás russoNo último inverno, a Rússia preocupou toda a Europa quando a estatal Gazprom cortou seus suplementos de gás natural para a Ucrânia. Um acordo entre as duas nações pôs fim ao impasse, mas a situação gerou temor em relação a dependência da Rússia como fornecedor de energia.A Gazprom fornece cerca de um quarto do gás consumido na Europa, sendo que 80% desse total vai para a Ucrânia.

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