CLAUDIO REYES/AFP
CLAUDIO REYES/AFP

Chile começa a investigar milhares de adoções irregulares na ditadura de Pinochet

Sem papéis que apoiem sua história, muitas mães guardaram sua dor por anos; à medida que os primeiros casos foram-se tornando públicos, muitas se deram conta de que milhares compartilhavam sua experiência.

O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2018 | 15h03

A Justiça chilena começou a abrir um dos capítulos mais obscuros da ditadura de Augusto Pinochet: a adoção irregular de milhares de crianças enviadas para o exterior. Hoje, essas mães procuram por seus filhos com a ajuda das redes sociais.

Em 9 de julho de 1977, durante os anos mais duros da ditadura (1973-1990), Margarita Escobar teve sua filha roubada no hospital Paula Jaraquemada, de Santiago. Chegou a ver seu bebê por alguns instantes, até que o levaram.

Quatro décadas depois, ela conta para a France-Presse que durante horas ninguém lhe deu qualquer informação sobre sua filha e, de tempos em tempos, injetavam nela alguma medicação para mantê-la adormecida.

"Sempre que eu acordava, voltava a perguntar por ela, até que uma enfermeira me disse: sua filha nasceu morta", afirmou.

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Ela pediu para vê-la para beijá-la, mas não deixaram. Depois disso, "ninguém me deu um único documento, me mandaram para casa. Não sei como cheguei. Estava totalmente dopada", lembra.

No mesmo hospital, em fevereiro de 1985, María Orellana deu à luz um menino, que chamou de Cristián. "Consegui ouvir que era um menino. Depois, me aplicaram uma injeção e não soube de mais nada", conta.

Durante dias, ela pediu para ver seu filho, mas ninguém a respondia, até que, enfim, disseram-lhe que ele havia morrido. Também não a deixaram ver o bebê. "Você vai ficar com a lembrança do bebezinho. Vai ser muito cruel vê-lo", ela se recorda de ter ouvido no hospital.

Assim como aconteceu com Margarita, María também não recebeu qualquer documento, nem lhe entregaram o corpo do filho. "Não tem nada. É como se eu não tivesse passado por esse hospital", desabafa ela, também empenhada em encontrar seu filho.

O juiz especial de causas de direitos humanos Mario Carroza faz, desde janeiro, uma extensa investigação sobre o roubo de menores concentrado nos anos da ditadura, embora, diante das novas denúncias, tenha-na estendido até 2000.

Embora se tenha descartado o sequestro de crianças como método repressivo, como aconteceu na Argentina, acredita-se que as condições dessa época facilitaram a atuação de grupos dedicados a "captar" menores para enviá-los para o exterior com fins econômicos.

A modalidade se assemelha à registrada na Espanha, onde acaba de ser aberto o primeiro julgamento por um caso de bebês roubados de suas mães para serem entregues a famílias adotivas, uma prática que começou sob a ditadura de Francisco Franco (1939-1975).

"Não estabelecemos um padrão que diga (que há) relação com alguma política estatal de repressão. Parece mais uma espécie de associação ilícita, uma organização com fins lucrativos a respeito da adoção de pessoas, de maneira irregular", explica à France-Presse o advogado do Instituto Nacional de Direitos Humanos Pablo Rivera, que apresentou denúncias em nome das mães.

Considera-se que um papel fundamental tenha sido de assistentes sociais, religiosos, médicos, ou funcionários municipais, ou de hospitais, que detectavam mães vulneráveis e depois levavam seus filhos.

"Em geral, os casos têm relação com mães de escassos recursos que deram à luz seus filhos, ou filhas, e depois foram enganadas por funcionários dos hospitais, dizendo-lhes que estavam mortos, ou doentes, ou que morreram depois, e nunca mais souberam de seus filhos", acrescenta Rivera.

A vigência, até 1988, de uma lei que permitia apagar as origens das famílias biológicas contribuiu para fomentar a prática, em um país mergulhado há anos no silêncio e no temor, explica a historiadora Karen Alfaro, da Universidade Austral.

Para Alfaro, a prática se "inscreve também dentro de uma luta ideológica da ditadura de Pinochet, um tipo de violência social sobre os setores mais pobres".

Não há registros da quantidade de crianças enviadas para o exterior. Segundo dados oficiais, entre 1973 e 1987, foram registradas 26.611 adoções no Chile, mas não se sabe quantas crianças foram levadas para o exterior.

O juiz Carroza conseguiu determinar que pelo menos 2.021 crianças foram adotadas na Suécia entre 1971 e 1992. Outras milhares chegaram à Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, Suíça, Estados Unidos, Uruguai e Peru. O valor pago por cada uma equivaleria, em valores atuais, a algo entre US$ 3 mil e US$ 5 mil dólares.

A busca 

Sem papéis que apoiem sua história, muitas mães guardaram sua dor por anos. À medida que os primeiros casos foram-se tornando públicos e se formaram grupos de busca em redes sociais, muitas se deram conta de que milhares compartilhavam sua experiência.

Um desses grupos é o "Hijos y madres del silencio", que reúne cerca de 3 mil pessoas no Facebook: filhos que buscam sua origem biológica e mães que querem se reencontrar com os filhos que lhe foram tomados.

"O que nós precisamos é que se abram os arquivos, as fichas dos hospitais, que se torne isso público para que as pessoas que estão fora do Chile se deem conta de que pode ser uma adoção ilegal", defende a responsável pelo grupo, Marisol Rodríguez.

Em três anos, o grupo conseguiu quase 90 reencontros.

Os testes de DNA são hoje sua maior ajuda. Com dificuldade, devido aos custos, muitas mães estão realizando os testes rápidos para poder ingressar em bancos genéticos internacionais.

"O que eu quero é saber o que aconteceu com minha filha, e se minha filha anda me procurando", disse Josefina Sandoval, após se submeter a uma teste.

"Estamos procurando por ela e, com isso, vamos encontrá-la", acrescenta, ao falar da filha que ela deu à luz e foi dada como morta em 24 de junho de 1980. / AFP 

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