Esteban Felix/AP
Esteban Felix/AP

The Economist: Chile destoa da vacinação na América Latina

Imunização dos latino-americanos é caótica, descoordenada e tem sido politizada em muitos governos da região

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

Na semana passada, diariamente, 100 mil chilenos entre 60 e 64 anos de idade foram vacinados contra a covid-19. Tendo vacinado quase 20% dos adultos, o sexto melhor desempenho no mundo, o Chile está no caminho de atingir sua meta de inocular 80% da sua população de 19 milhões de pessoas até 30 de junho. Depois de imunizar os trabalhadores de saúde, as vacinas agora vêm sendo aplicadas obedecendo ordem de idade, um ano diferente a cada dia, assim como também vêm sendo dadas aos professores.

Este programa de vacinação rápido e ordenado contrasta com o restante da América Latina. Em termos de vacinação, como em outros assuntos, a região mostra suas divisões, desigualdades e problemas de governança. Neste caso, tristemente, isso tem custado vidas. Colômbia, Equador, Venezuela e diversos países menores mal começaram a vacinar. O México, com 2% da sua população vacinada em 1.º de março, está abaixo da média mundial de 3,5%. 

No Brasil, com 4%, a vacinação está atrás da nova variante P1 do vírus, que se propaga mais rápido do que a cepa original e desconsidera a imunidade natural do indivíduo. Na semana passada, os secretários de Saúde dos 27 Estados do Brasil declararam que o país vive “seu pior momento” da pandemia.

A vacinação lenta se deve em grande parte à escassez de vacinas em todo o mundo, especialmente as produzidas pelas farmacêuticas ocidentais, cujos estoques têm ido principalmente para seus mercados domésticos. Argentina, Brasil e México planejam produzir vacinas, mas têm dificuldade para obter os ingredientes ativos e frascos. 

Parte do problema são as confusões dos governos. Enquanto a União Africana comprou antecipadamente um grande volume de vacinas, a falta de coordenação da América Latina levou os países da região a competirem entre si, afirmou Ernesto Ortiz, do Global Health Institute, da Duke University. E, nessa competição, o Chile tem agido corretamente: em meados de 2020 fechou contratos com várias companhias farmacêuticas para realizarem ensaios com a vacina no país para ter uma entrega antecipada do produto, e o seu programa de imunização tem um banco de dados digital atualizado. Muitos governos estão às voltas com negociações complexas para aquisição do imunizantes.

Tudo isso resulta numa “dispersão”, segundo Clare Wenham, especialista em saúde na London School of Economics. Diferentes vacinas, diferentes grupos prioritários e diferentes planos de distribuição complicam a abertura das economias da região, acredita ela. E essa dispersão se deve à manipulação política. A distribuição da vacina no Brasil tem sido particularmente caótica por causa do governo federal de Jair Bolsonaro, um populista que nega a gravidade do vírus e se absteve do trabalho.

No México, outro país federalista, o governo de Andrés Manuel López Obrador tirou o controle do programa de vacinação dos Estados. Com uma importante eleição marcada para junho, o governo decidiu que 333 municipalidades “extremamente marginalizadas” devem ser vacinadas em primeiro lugar. Muitas estão na zona rural e foram menos atingidas pela pandemia do que as cidades. Os professores foram vacinados antes dos enfermeiros, que correm maior risco.

Isso é furar a fila em nome de uma clientela política. Por toda a parte são os poderosos que vêm furando a fila. No Peru, os ministros da Saúde e do Exterior renunciaram no mês passado depois de ser divulgado que estavam entre os 487 privilegiados que secretamente se beneficiaram das doses de amostra fornecidas pela empresa chinesa Sinopharm a título de incentivo – outro foi Martín Vizcarra, afastado da presidência em novembro. 

Credibilidade

 Esses casos não são bons para a credibilidade da democracia em seus países. E também “jogam contra a confiança nos programas de vacinação”, disse a doutora Ortiz. Pesquisas sugerem que a hesitação com relação à vacina aumentou no Peru desde agosto.

As vacinas atualmente disponíveis na região vêm principalmente da China e da Rússia, que foram mais ágeis no fornecimento das doses do que seus rivais ocidentais. A China realiza muitos negócios e também investe muito em vários países latino-americanos. Pela primeira vez, a diplomacia da vacina confere a ela o poder brando. A Rússia quase desapareceu da América Latina desde o fim da Guerra Fria. Agora, está de volta e com ares de benevolência.

A vacinação é uma maratona, não uma corrida de velocidade. Em 27 de fevereiro, os países latino-americanos encomendaram 550 milhões de doses de vacinas de laboratórios ocidentais, em comparação com os 213 milhões encomendados da China e 73 milhões da Rússia, segundo a Duke University. No final deste ano, as doses vindas de laboratórios ocidentais devem chegar com força. 

Eventualmente, escândalos e a fonte das primeiras vacinas serão esquecidos se a região adquirir imunidade e as novas variantes forem mantidas à distância. Mas o mais provável é que os esforços descoordenados de vacinação tenham consequências diplomáticas e políticas duradouras. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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