REUTERS/Ivan Alvarado
REUTERS/Ivan Alvarado

Chile encerra campanha com Piñera na dianteira

Ex-presidente aposta em uma vitória no 1.º turno, mas dois candidatos podem surpreender e forçar nova votação

Pablo Pereira, Enviado Especial / Santiago, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2017 | 22h05

SANTIAGO - Com um comício à beira de um lago no parque Renato Poblete, em Quinta Normal, Região Metropolitana de Santiago, o candidato favorito na campanha eleitoral do Chile, Sebastián Piñera, da coligação Chile Vamos, encerrou a campanha na noite desta quinta-feira. Na chegada, cercado por militantes, Piñera reforçou compromisso com a criação de emprego e criticou o governo da presidente Michelle Bachelet.

Na região central da capital, o segundo colocado nas pesquisas, Alejandro Guillier (Força da Maioria),  também fez comício com uma militância confiante no segundo turno. O coordenador geral da campanha dele, Osvaldo Correa, disse estar confiante que a "união das forças de esquerda levará Guillier para ir ao segundo turno" em 17 de dezembro.

Oito candidatos disputam a presidência chilena. Também serão renovadas 23 cadeiras no Senado e 155 assentos na Câmara dos Deputados. Segundo pesquisas do instituto CEP, Piñera chega à reta final com 44% das intenções de voto, seguido de Guillier, com 23%, e pela jornalista Beatriz Sánchez (Frente Ampla), com 14%.

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Mas há pelo menos duas outras candidaturas que podem surpreender, impedindo que Piñera leve a presidência já no primeiro turno. A candidata Carolina Goic, do partido Democracia Cristã (DC), que aparece com cerca de 4% nas “encuestas”, tem reunido apoios à esquerda, centro e direita, e já é cortejada para uma eventual aliança com Guillier, em caso de Piñera perder a chance de matar a eleição no domingo. 

Observadores políticos de Santiago dizem que Piñera parou de crescer e Guillier tem atraído apoios que podem adiar a decisão sobre a presidência. Durante toda a campanha, o ex-presidente Piñera permaneceu à frente nas pesquisas. A plataforma do empresário se firma na criação de empregos, com retomada do crescimento principalmente na mineração, carro-chefe da economia chilena.

Para o cientista político Sérgio España, que trabalha com grupo de análise política da Universidade Diego Portales, a eleição dependerá também do desempenho eleitoral de pelo menos dois outras candidatos: o advogado ultraconservador José Antonio Kast, radical que cumpre agenda de direita, e também de “ME-O”, como é conhecido o deputado Marco Enríquez-Ominami, cineasta e filósofo, ex-socialista, que concorre pelo Partido Progressita. “Kast pode ter um voto escondido dos chilenos e surpreender”, diz España. “Assim como ME-O e Goic”, explicou.

España lembrou que a candidata Beatriz Sánchez tem sua base entre os jovens chilenos, exatamente um tipo de eleitor dos mais desiludidos do país, o que pode terminar por atrapalhar o desempenho dela na votação. De acordo com o analista, o eleitor chileno “sofre de uma desconfiança” que afeta as relações em diversos níveis, além do interesse político. “No Chile, se você promete algo, tem de entregar 100%. Se você entregar 60%, por exemplo, como é natural em política, os chilenos já julgam que foram enganados”, explica España.

Para ele, isso explica em parte a baixa adesão eleitoral, o desinteresse pela política e o baixo comparecimentos nas votações. Nas eleições municipais de 2013, somente cerca de um terço do eleitoral foi às urnas. Ele lembra que o voto não é obrigatório no país. O Chile tem 14,3 milhões de eleitores aptos a votar, mas autoridades eleitorais esperam um comparecimento entre 6 milhões e 7 milhões.

Esquerda dividida. O bloco de esquerda enfrenta o poderoso Piñera esfacelado e com Bachelet afastada da campanha. Ela perdeu popularidade no governo, já esteve na casa dos 25% de aprovação, embora nos últimos meses tenha se recuperado, voltando ao patamar dos 35%. Desgastada desde o escândalo familiar de 2014 quando a empresa da nora dela, Natália Compagnon, mulher de Sebastián Dávalos Bachelet, meteu-se num negócio imobiliário com três terrenos comprados com empréstimo do Banco do Chile. O filho da presidente foi acusado de tráfico de influência. 

Líderes importantes do país, como o ex-presidente Ricardo Lagos (PPD) que também se manteve afastado, depois de perder apoio do PS para sua indicação, em abril. O PS decidiu se aliar a Guillier. Lagos não conseguiu amealhar aprovação popular, ficando com aprovação de menos de 5%, segundo analistas, e abandou a disputa.

O desgaste de representantes da esquerda chilena tem ainda outros componentes, como os escândalos envolvendo políticos do PS, como o senador Fulvio Rossi, que deixou o partido em 2016 pressionado por responder a processo na justiça sobre financiamento de campanha. Na última quarta-feira, Rossi foi hospitalizado em sua cidade, Iquique, alegando ter sido atacado a facadas por um desconhecido. Ele tem feito campanha contra os imigrantes, uma das preocupações dos grupos de direita no Chile.

Frustração. Outro fator que tem influenciado o ânimo do eleitor chileno, segundo analistas, é a economia. Nos últimos dois anos, principalmente, a crise econômica internacional, com a queda nos preços das commodities e a redução da atividade de importação na China, afetou o principal produto chileno, o cobre. No ano passado, o preço do metal caiu quase pela metade no mercado internacional, descendo de cerca de US$ 4 por libra de cobre (em 2012) para algo em torno de US$ 2, explica um analista.

Para esse analista econômico, de Santiago, com a retomada no preço do cobre, que se recupera neste ano e já está flutuando na casa dos U$ 3, Chile deve fechar 2017 com um crescimento de cerca de 1,8%. O país tem uma inflação controlada, na casa dos 2% ao ano, e o desemprego gira entre 6% e 7%.

No ano passado, o PIB do país cresceu 1,6%, o que levou a analistas a considerarem que o país esteve andando de lado e perdendo tempo de avançar internamente. Em avaliação sobre o momento econômico chileno, divulgado pelo CEP, o economista Vittorio Corbo, ex-presidente do Banco Central do Chile, acredita que a recuperação da economia mundial vai ajudar o Chile. Ele prevê um 2017 com crescimento em torno de 1,6, mas uma recuperação mais acentuada para 2018. De acordo com Corbo, o próximo governo vai encontrar uma economia crescendo entre 2,12% e 3,25%, com inflação entre 2,4% e 2,8%.

Nova lei. Pela nova lei eleitoral, promulgada no governo de Bachelet, em 2015, o sistema político amplia a participação de pequenas agremiações e promove maior participação das mulheres no parlamento. Bachelet mudou o mapa eleitoral chileno reduzindo as circunscrições que elegem senadores de 19 para 15 regiões e de 60 distritos, que elegem deputados, para 28. A reforma muda a representação no Congresso. 

A reforma de Bachelet encerra o modelo decretado em 1989, último ano da ditadura Pinochet. A nova lei garante também cotas de vagas para as mulheres, garantindo um mínimo de 40% das candidaturas. Na última eleição, os chilenos elegeram mulheres para 20% das cadeiras do congresso. A lei prevê ainda a eleição por listas de partidos ou coligações. O eleitor pode votar em um candidato específico dentro da lista.

 

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