Rodrigo Garrido/Reuters
Rodrigo Garrido/Reuters

Chile não pode se dar ao luxo de uma guinada para o radicalismo; leia análise

Esquerdista Gabriel Boric venceu a eleição chilena mais polarizada em décadas ao se aproximar do centro; para governar, ele precisará de uma dose mais pesada de moderação

Bloomberg*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 05h00

O ex-ativista estudantil Gabriel Boric venceu a corrida presidencial mais polarizada do Chile desde seu retorno à democracia. Ele é o presidente eleito mais jovem até o momento e o mais à esquerda desde Salvador Allende em 1970. O progressista de 35 anos deve agora, de forma incontestável, abandonar sua retórica radical inicial, mesmo às custas de desagradar seus aliados incendiários. Sem pragmatismo e uma ampla coalizão, ele tem poucas esperanças de governar, muito menos de enfrentar as profundas queixas sociais e econômicas que o levaram ao poder.

Boric já começou melhor do que outros na região este ano. Seu oponente ultraconservador, José Antonio Kast -- um homem que defendeu o legado do ditador Augusto Pinochet e se posicionou com mão firme no crime e na imigração - rapidamente admitiu e prometeu "colaboração construtiva". Isso é uma boa notícia para uma democracia que ainda luta com as divisões reveladas pelos protestos de rua em 2019. Ajuda o fato de Boric ter vencido com 56% dos votos decisivos no segundo turno de domingo, e com o comparecimento mais impressionante desde que a votação se tornou voluntária em 2012.

No entanto, as apostas para sua presidência ainda são excessivamente altas. O Chile, por muito tempo um símbolo regional de moderação próspera, dificilmente pode se permitir o tipo de radicalismo que Boric uma vez defendeu. Os mercados estarão observando de perto o maior produtor de cobre do mundo em busca de mais sinais de uma virada anticapitalista. E outros eleitorados polarizados na vizinhança - incluindo no Brasil e na Colômbia - podem muito bem ver o novo governo como um modelo, a ser copiado ou evitado.

Boric agora precisa reconciliar o novo contrato social generoso que prometeu com as realidades econômicas de aumento da inflação e forte desaceleração do crescimento. Ele também precisa ouvir os eleitores inquietos que impulsionaram Kast da periferia para o segundo turno da corrida presidencial, a maioria dos quais quer melhores serviços, mas não revolução. Ao mesmo tempo, ele enfrenta um congresso dividido, bem como a incerteza que acompanha uma nova constituição, que deve ser apresentada aos eleitores no próximo ano.

Ele deveria começar construindo uma ampla coalizão para promover sua agenda social e econômica, trazendo conselheiros centristas para combater sua relativa inexperiência. Selecionar um ministro da Fazenda entre sua equipe recentemente ampliada de consultores econômicos, que inclui o ex-presidente do banco central Roberto Zahler, seria um bom primeiro passo. Essa escolha será vital para tranquilizar os investidores e poupadores agitados que retiraram bilhões do Chile nos últimos dois anos (US$ 8,8 bilhões apenas nos seis meses até agosto, de acordo com o Banco Central). Boric deve demonstrar que, embora seja um crítico frequente dos partidos de centro do Chile, ele ainda pode trabalhar com eles.

Mais crucial, ele precisa mostrar que suas promessas de melhorar os serviços básicos, estabilizar as pensões e acelerar os esforços de redistribuição não virão às custas do fim da moderação fiscal que destacou o Chile por tanto tempo. É difícil ver como ele pode evitar um déficit orçamentário maior no curto prazo, mas ele pode se comprometer com a prudência de longo prazo. Só então Boric pode mudar para suas prioridades, incluindo reformas na educação, legislação trabalhista e saúde. Também há desafios de imigração e confrontos com os Mapuche, a principal minoria indígena do país, no sul.

Nada disso será fácil. Mas Boric mostrou disposição para se comprometer e se adaptar, alcançando os centristas e reconhecendo os erros. Ao construir pontes, ele pode esperar fazer alguns avanços e abrir um precedente bem-vindo. Ao ceder ao extremo, ele só pode prometer demais e entregar de forma insuficiente.

*OS EDITORIAIS SÃO ESCRITOS PELO CONSELHO EDITORIAL DA BLOOMBERG OPINION

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