Martin BERNETTI / AFP
Martin BERNETTI / AFP

Chile passa de exemplo a 3º com mais contágios na América do Sul

País enfrenta resistência a quarentena com grande quantidade da população obrigada a trabalhar diariamente para ter renda; ministro da Saúde pediu demissão na última semana após polêmica na divulgação dos casos

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 12h00

Se no início da pandemia o Chile era um exemplo e um modelo a ser seguido na contenção do coronavírus, com grande número de testes e uma quarentena efetiva, 60 dias foram suficientes para mudar o panorama no país: agora a nação tem mais de 220 mil casos, 3.615 mortos e é a 9ª mais afetada do planeta. Na América do Sul, só está atrás de Brasil e Peru em número de infectados.

E os prognósticos não são bons diante de estatísticas que não cedem e medidas que não têm tido efeito para diminuir os contágios, especialmente em Santiago, que concentra mais de 80% dos casos e mais de um terço da população. 

"São números muito dramáticos e, infelizmente, é possível esperar que apenas piore", disse Juan Carlos Said, médico e especialista em saúde pública do Imperial College de Londres. 

Após mais de um mês de confinamento em Santiago, onde vivem sete milhões de pessoas, o número de contágios e mortes não diminuiu, principalmente devido à falta de adesão à quarentena, que só conseguiu reduzir a mobilidade em 30%. A crise fez com que o então ministro da saúde pedisse para deixar o governo no sábado, 13.

Jaime Mañalich, que no início da pandemia foi elogiado pela quarentena bem-sucedida e por ter elevado as capacidades dos hospitais chilenos, passou a ser alvo de críticas da oposição por não fornecer dados mais detalhados dos contágios e modificar os critérios de registro e divulgação de novos casos.

Especialistas falam que houve subnotificação e a confiança da população no governo reduziu. Depois, uma denúncia mostrou que o governo informava números maiores à Organização Mundial da Saúde (OMS) do que nos comunicados diários à população. 

Outra dificuldade enfrentada pelo ministro foi o grande número de pessoas que vivem de trabalhos informais e precisam sair de casa todos os dias para ter renda. "Há áreas em Santiago que eu não tinha conhecimento da magnitude da pobreza e da lotação", admitiu o então ministro em fins de maio. 

A situação se repete em outras regiões. Cerca de 300 mil pessoas vivem em Valparaíso, em sua maioria humildes, aparentemente alheias ao alarme das estatísticas chilenas, onde aparecem como o segundo foco de casos ativos em um país de quase 18 milhões de habitantes. A região de Valparaíso, que inclui o porto de San Antonio, com mais de 1,8 milhão de habitantes, tem cinco prefeitos que testaram positivo para a covid-19. Em uma semana foram registrados 1.801 casos. 

"Aqui continuamos abrindo. Sem turistas, mas não podemos nos dar ao luxo de fechar", admite Gonzalo Correa, gerente da padaria El Trigal, com um terraço improvisado para tomar café.  

No centro, a praça Victoria, ou a Sotomayor, e também as calçadas das avenidas comerciais estão repletas de transeuntes, vendedores ambulantes e até mesmo feiras onde abundam alimentos e acessórios para se proteger do frio. "A maioria na nossa cidade, se não sair de casa, não come", disse o prefeito de Valparaíso, Jorge Sharp, da oposição. 

Como em outras regiões pobres do Chile, o governo de Sebastián Piñera anunciou "vouchers" e caixas de alimentos para Valparaíso. Alguns receberam, mas muitos, não, e reclamam da resposta tardia diante da aceleração de uma pandemia que atinge com força aqueles para quem o trabalho remoto é uma fantasia e garantir as três refeições, uma batalha diária.

Testes 

Com um nível de testes que chega a 20 mil por dia, o Chile ocupa o primeiro lugar na região em total de casos em termos relativos, com cerca de 9.652 contágios por milhão de habitantes, segundo o site Worldometers, que juntamente com outras publicações estatísticas da Universidade Oxford tem sido amplamente divulgado na mídia chilena desde o fim de semana. 

O país é seguido por Peru, com 7.071; Estados Unidos, com 6.644; Panamá, com 4.968; Guiana Francesa, com 4.764 e Brasil, com 4.258.

Recuperação difícil

A pandemia do coronavírus surpreendeu o Chile em recuperação após os efeitos dos grandes protestos sociais que eclodiram em 18 de outubro de 2019 e que paralisaram grande parte do comércio, levando a economia local a contrair 2,1% no último trimestre de 2019. 

Com um primeiro caso relatado em 3 de março e medidas restritivas não tão severas a princípio, com quarentenas seletivas, alguns setores da economia chilena - especialmente mineração de cobre, metal do qual o Chile é o maior produtor do mundo - continuaram funcionando. 

No entanto, com o aumento de infecções e mortes, em 15 de maio o governo impôs a quarentena geral em Santiago, a capital, onde sete dos 18 milhões de habitantes do Chile vivem e geram quase metade do PIB nacional.

Desde então, as restrições operacionais para grande parte do comércio aumentaram, sem afetar a mineração até o momento. O setor opera principalmente no norte do país e agora se beneficia do aumento internacional do valor do cobre como resultado da recuperação gradual da China. 

Nesta semana, as autoridades anunciaram redução de cinco para duas permissões de saída por pessoa por semana, mas se recusaram a colocar a Santiago para "hibernar", como solicitado por especialistas. "Não é possível executar uma medida como essa porque ficaríamos sem serviços básicos", disse o novo ministro da Saúde, Enrique Paris, na quarta. 

Autoridades anunciaram que vão restringir as autorizações para atividades essenciais que permanecem em funcionamento na quarentena, renovada por mais uma semana em Santiago. Também será exigida uma autorização específica para funcionários públicos e empregados de serviços e comércio essenciais, que antes circulavam apenas com uma credencial.

Inicialmente a quarentena de maio foi amplamente respeitada e no primeiro dia restringiu os deslocamentos em 85%, mas a adesão perdeu a força ao longo das semanas. Segundo a polícia, desde o início da pandemia, 100 mil pessoas foram abordadas no país por não cumprirem a normas de isolamento. 

O Chile estendeu o "estado de emergência constitucional devido à catástrofe" por três meses, mas a paralisia causada pelas medidas de confinamento tem sido um duro golpe para a economia chilena. O Banco Central do Chile anunciou que o país sofrerá sua pior contração econômica em 35 anos, com uma queda de até 7,5% do PIB em relação ao ano passado.

O relatório do Banco Central estima uma contração anual de 6% no consumo privado devido à queda na renda familiar, enquanto o investimento vai reduzir cerca de 16% em 2020, devido a uma queda acentuada nos setores não mineradores.  

O presidente Sebastián Piñera assinou um projeto de lei para expandir uma receita de emergência e um plano de recuperação por dois anos, no valor de US$ 12 bilhões. / AFP e The New York Times 

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