Chile proíbe gás lacrimogêneo e depois recua

Especialista diz que substância poderia provocar aborto, mas suspensão do uso durou apenas 3 dias

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Os carabineiros do Chile - conhecidos desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-90) pela dureza com que reprimem manifestações de rua - foram proibidos por 72 horas de usar uma de suas munições preferidas: as bombas de gás lacrimogêneo. Segundo alerta feito pela Universidade do Chile, o clorobenzilideno malononitrilo, usado na bomba, tem efeito abortivo, provoca infertilidade e aumenta a agressividade de quem inala a substância.

A decisão de proibir o uso da bomba tinha sido anunciada na quinta-feira pelo líder conservador e vice-presidente Rodrigo Hinzpeter. Mas a medida vigorou apenas três dias, antes de ser suspensa pela presidência na sexta-feira, diante da forte pressão exercida pelos setores de direita e pelos policiais.

"Quer dizer que, em três dias, os cientistas do governo fizeram estudos exaustivos e descobriram que essas bombas são boas, no final? É para dar risada?", criticou o líder do Movimento Ação Ecológica, Mariano Rendón.

O debate sobre o uso de gás lacrimogêneo vem antecipando o clima de tensão vivido pelos chilenos diante de uma grande onda de protestos esperada para hoje, quando o presidente Sebastián Piñera fará a prestação anual de contas ao Congresso.

Tradicionalmente, a ocasião já é marcada por violentos choques entre policiais e manifestantes. Mas, este ano, a data deve ser ainda mais conturbada, pois o governo vem enfrentando forte rejeição ao projeto de construção de uma central hidrelétrica na Região de Aysén (sul).

"É razoável suspender o uso do lacrimogêneo até que novos estudos médicos nos permitam dissipar qualquer dúvida sobre seu impacto na saúde", disse Hinzpeter ao anunciar pela primeira vez a proibição do uso da bomba. Mas, na sexta-feira, o vice-presidente reapareceu com uma conclusão surpreendente: "Efetuamos os estudos necessários e concluímos que o gás não é abortivo". A mudança súbita de posição causou perplexidade em cientistas e revolta na oposição.

O alerta que havia levado o governo chileno a proibir o uso do clorobenzilideno malononitrilo foi feito pelo médico Andrei Tchernitchin, da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile. Ele reconheceu ao Estado que suas conclusões "não são definitivas, precisam ser aprofundadas, mas já indicam que os riscos são reais e as sequelas, irreversíveis".

Ao proibir o uso da bomba, o governo Piñera - o primeiro de direita a vencer uma eleição democrática em 50 anos no Chile - roubou um discurso histórico da oposição, que acusa a polícia de uso excessivo da força na contenção de distúrbios sociais, atribuindo a isso uma herança da ditadura.

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