Rodrigo Abd/AP
Rodrigo Abd/AP

Chilenos completam 50 dias de protestos: 'A pressão sobre Piñera não pode parar'

Milhares de manifestantes marcharam pelas ruas de Santiago nesta sexta-feira, 6

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 00h47

Milhares de chilenos marcharam pelas ruas de Santiago nesta sexta-feira, 6, para pressionar o presidente Sebastián Piñera a tomar 'medidas profundas' que reduzam a desigualdade no país, que completa 50 dias de protestos.

Reunidos na Plaza Italia, o epicentro dos protestos durante as últimas sete semanas, os manifestantes demonstraram força após vários dias de calorosas chamadas. "Entendo que há medo de sair e protestar, mas precisamos continuar pressionando o presidente até vencermos", disse a manifestante Romina Sánchez à agência Efe.

Para Sánchez, o governo "não quis escutar" porque, em vez de apelar ao diálogo, promoveu "leis cada vez mais repressivas", referindo-se à lei aprovada na quarta-feira passada pela Câmara dos Deputados que endurece as penas para saques e excessos públicos.

Com o slogan "A marcha da esperança", foi publicado na sexta-feira um chamado nas redes sociais que exibia a imagem de Gustavo Gatica e Fabiola Campillai, que perderam a visão nos dois olhos devido à suposta ação das forças do estado.

O jovem Gatica foi atingido por balas no rosto durante uma manifestação e ficou cego, e Campillai também perdeu a visão após o impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo. "Não pode haver impunidade nas violações dos direitos humanos, e é por isso que os protestos não vão se acalmar", disse Sánchez.

Não houve grandes confrontos entre manifestantes e policiais nas ruas em torno da Plaza Italia. Da mesma forma, centenas de pessoas estavam concentradas nas proximidades do shopping Costanera Center, adjacente à Grande Torre de Santiago, a maior da América Latina, e até dezenas delas entraram nas instalações. Os protestos registraram, no entanto, arremessos de pedras e carros que lançavam água e bombas de gás lacrimogêneo.

Mudanças. José Gallardo, um estudante universitário, disse que "a pressão da rua acaba causando mudanças mais profundas, porque no momento o governo não nos dá nenhuma solução, apenas investe cada vez mais dinheiro na polícia". O jovem da cidade de Antofagasta, no norte, que viajou à capital chilena para participar das mobilizações, garantiu a Efe que "muitas pessoas que ficam em casa têm outras maneiras de apoiar os jovens que vão às marchas", como "disseminar informações sobre violações dos direitos humanos causadas por pessoal uniformizado".

Após 50 dias de protestos no país andino, pelo menos 23 pessoas morreram. Cinco delas teriam sido vitimadas diretamente por agentes do Estado. O Instituto Nacional de Direitos Humanos (NHRI), estatal, informou na sexta-feira que registrou 685 denúncias de uso excessivo da força pelos uniformizados.

O cenário das mobilizações que sacodem o Chile há 50 dias é a crítica ao seu modelo neoliberal, considerado a origem das desigualdades no país e sustentado na Constituição de 1980, criada sob a ditadura de Augusto Pinochet (1973- 1990).

"Ainda não conseguimos nada", disse Denisse Araya, 31 anos, que explicou a Efe que tomou emprestado de um banco para estudar Química e que ainda tem 20 anos para devolver o empréstimo.

Araya apontou como principais problemas os ganhos milionários dos Administradores de Fundos de Pensões (AFP), empresas privadas que administram as pensões da maioria dos chilenos, bem como a privatização do sistema de saúde, a falta de habitação social e destacou a necessidade de estabelecer paridade de gênero no órgão responsável pela elaboração de uma nova Constituição hipotética, se assim for decidido no referendo previsto para abril de 2020. "Se o governo não oferecer uma resposta para tudo isso, as pessoas continuarão na rua" previu a jovem química. /EFE

 

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