Chilenos discutem como Pinochet passará para a história

A morte do general Augusto Pinochet, no domingo, provocou uma troca de insultos entre integrantes do governo da presidente socialista Michelle Bachelet e partidários do ex-ditador. As diferenças são sobre como Pinochet passará para a história. ?Como um clássico ditador da direita que violou os direitos humanos e enriqueceu às custas dos outros. Um ditador a mais na América Latina?, resumiu o ministro do Interior, Belisário Velazco. Ao que o presidente do partido que sempre apoiou Pinochet, Hernan Larraín, da UDI, respondeu: ?Falta de respeito. Não lembraram disso quando ele passou a faixa presidencial para o (então) presidente Patrício Alwin?. Alwin foi o primeiro presidente da transição democrática, após 17 anos do regime de Pinochet (1973-1990). O ex-presidente é membro da Democracia Cristã (DC), que há mais de 16 anos está unida ao Partido Socialista na base governista chamada ?Concertación? (frente de centro-esquerda).Em sintonia com Belisário Velazco, o ministro da Economia, Alejandro Ferreiro, afirmou que Pinochet faz parte do passado. ?Politicamente, ele já tinha morrido há muito tempo?, afirmou.ProcessosO ex-presidente Eduardo Frei, sucessor de Alwin, saiu em defesa de Michelle Bachelet, que sofreu fortes pressões nas últimas horas dos que a criticaram publicamente por não ter declarado luto nacional e enterro com honras de Estado a Pinochet. ?Com esse acúmulo de processos contra ele, não se poderia correr o risco de passar uma imagem errada para a opinião pública?, afirmou, referindo-se aos mais de 300 processos judiciais contra Pinochet. Frei disse ainda que o país era outro quando ele era o presidente do Chile e decretou luto oficial por três integrantes da cúpula militar, que estiveram com Pinochet e morreram durante sua gestão. ?O país mudou. E hoje nossa prioridade deveria ser a busca de justiça e a união nacional.?Frei e outros integrantes da DC estavam, ultimamente, afastados da gestão de Bachelet e chegou-se a falar na divisão da ?Concertación?. Com a morte do ex-ditador, eles voltaram a se falar e, segundo assessores, no mínimo estão ?ganhando tempo? para definir o destino desta aliança política.Era PinochetMas nenhum destes argumentos parece ter convencido os legisladores dos partidos de direita - União Democrática Independente (UDI) e Renovação Nacional (RN) -, protetores da era Pinochet. ?Uma coisa é ser adversário e a outra é denegrir a imagem do opositor. E é isso que estão fazendo com o general, depois de morto?, reclamou o senador Sergio Romero, da RN. ?O modelo que Pinochet criou entrou para a história. Não só no Chile, mas em toda a região. Ele foi precursor na América Latina e isso ninguém tira dele?, disse. Para o senador, Pinochet deveria ser ?despedido? nesta terça-feira com todas as homenagens possíveis.´Pacto de silêncio´Para as organizações de direitos humanos, como Familiares de Presos e Desaparecidos Políticos, a morte do general não enterra as expectativas sobre o futuro das investigações nos processos contra ele. ?Que os militares vivos aproveitem a morte de Pinochet e rompam o pacto de silêncio. Contem o que sabem, para o bem do país?, disse Mireya García, vice-presidente da entidade. De Madri, na Espanha, onde participa de reuniões oficiais, a deputada socialista Isabel Allende (filha do ex-presidente Salvador Allende) voltou a pedir justiça.?Não é porque Pinochet morreu que os trabalhos terminam. Não, ainda temos muito pela frente?, disse. ?E faço um apelo para que esse dinheiro no exterior seja entregue aos cofres públicos, que não fique de herança para a família dele.?Investigações do Senado americano revelaram que Pinochet possuía contas milionárias no Banco Riggs, de Washington.Feridas abertasSocialista como Isabel Allende e filho de outro alvo do regime de Pinochet, o senador Juan Pablo Letelier está no grupo dos que pensam que a morte de Pinochet simboliza ?o fim de uma etapa? no Chile. ?Mas ainda existem sentimentos enfrentados, sem prazo para terminar entre os chilenos?, lamentou. ?Vendo aquela fila pelo velório de Pinochet, ficou ainda mais claro que o pinochetismo já tem três gerações. Ali, estavam jovens de menos de 20 anos?, surpreendeu-se. Mas para o senador, a maior ?frustração? foi Pinochet não ter respondido na Justiça pelos crimes de que foi acusado. Letelier é filho do ex-ministro Orlando Letelier, do governo de Allende, morto num atentado a bomba, em Washington, realizado pela DINA, a polícia que atuou no regime do general. Para ele, para Isabel Allende e para a presidente Bachelet - cujo pai também foi homem forte do governo Allende e morreu na prisão na gestão Pinochet - o epílogo desta história só surgirá quando toda a verdade daqueles tempos for divulgada e depois da Justiça. ?Tenho memória, creio na verdade e espero justiça?, disse a presidente, ao falar depois da morte de Pinochet. Para eles, a história é hoje e está viva.

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