Chilenos elegem Bachelet em 2º turno com baixa participação do eleitorado

Socialista que governou o país entre 2006 e 2010 recebe 62,2% dos votos e derrota com folga Evelyn Matthei, a candidata da centro-direita, que obteve 37,8%

Guilherme Russo, Enviado Especial / Santiago - O Estado de S.Paulo,

16 de dezembro de 2013 | 02h03

Presidente eleita comemorou a vitória em um comício organizado diante do comando da campanha, em Santiago (Foto: Jorge Saenz/AP)

SANTIAGO - Michelle Bachelet, líder da coalizão Nova Maioria, foi eleita ontem a nova presidente do Chile em um segundo turno marcado pelo baixo comparecimento da população. A socialista, que já governou o país de 2006 a 2010, derrotou a conservadora Evelyn Matthei por uma diferença expressiva de votos - com 99,96% das urnas apuradas, Bachelet tinha 62,2%, contra 37,8% de Matthei.

A presidente eleita participou ontem de uma comemoração em frente ao hotel onde estava seu comando de campanha na capital, Santiago. Diante do local, um palco foi montado e militantes começaram a chegar assim que os primeiros resultados foram divulgados.

"Ganhou a chefa! A que saber mandar. A outra não sabe nada!", disse o inspetor de transporte coletivo José Riquelme, de 44 anos. "É um grande triunfo para o povo chileno. Uma alegria enorme", afirmou o mecânico Marco Llanor, de 57 anos, que veio para a comemoração com o filho, a nora e a neta.

Matthei reconheceu a derrota no início da noite. "Meu desejo mais honesto e profundo é que tudo vá bem para ela. Ninguém que ame o Chile pode desejar o contrário", afirmou.

Bachelet discursou reforçando suas promessas de realizar grandes reformas. "Chile, agora, finalmente, é o momento de fazer as mudanças".

O baixo comparecimento de eleitores, no entanto, pode dificultar parte do processo. As filas que os chilenos enfrentaram para votar em 17 novembro não se repetiram no segundo turno da disputa.

Em um universo de 13,5 milhões de registrados, cerca de 5,7 milhões foram às urnas ontem. No primeiro turno, foram 6,7 milhões. Foram as primeiras eleições presidenciais no Chile sem voto obrigatório.

Analistas políticos chilenos ressaltam que uma baixa participação prejudicará Bachelet na implementação de suas principais promessas de campanha.

Com a maioria que possui no Parlamento, de 55% nas duas Casas, sua coalizão tem votos suficientes para aprovar algumas das reformas essenciais - como a criação de um sistema educacional gratuito e de qualidade e uma reforma tributária que bancaria as mudanças na educação.

Para conseguir aprovar a reforma constitucional que pretende fazer, porém, a socialista precisará cooptar parlamentares da oposição, em busca da maioria qualificada necessária - para tanto, um grande número de votos do eleitorado chileno daria a ela o cacife político necessário para convencer os conservadores a apoiá-la.

No discurso da vitória, Bachelet reconheceu o problema, mas demonstrou coragem. "Não vai ser fácil, mas quando foi fácil mudar o mundo para melhor?", disse.

DESENCANTO

Nos centros de votação visitados pelo Estado em Santiago ontem, o movimento era baixo. No Estádio Nacional do Chile, onde longas filas se formaram em novembro, não havia espera para votar. As urnas, de vidro emoldurado, tinham poucos votos às 13 horas - e uma mesária dormia sobre os registros de votação.

"Tem muito menos gente. No primeiro turno, esperei meia hora na fila, hoje (ontem), não esperei nenhum minuto. O desencanto é muito grande com a classe política", afirmou o administrador de hotéis Cristián Verdugo, de 50 anos.

"Como agora o voto é voluntário, as pessoas deixaram de lado o comprometimento cívico, pois não existe mais essa obrigatoriedade", disse a dona de casa Natacha Moran, de 63 anos, após votar.

A mesma impressão tinham os eleitores que votavam em centros eleitorais que concentravam menos mesas. "Da outra vez, esperei uma hora. Hoje (ontem), não demorei nem três minutos. O voto deveria voltar a ser obrigatório", afirmou o motorista de ônibus Angel Arias, de 55 anos.

DIÁLOGO

Evelyn Matthei adotou discurso conciliador. Pouco antes de votar, a candidata conservadora já havia reconhecido que uma vitória seria quase impossível. "Vou pedir diálogo a ela. Que não haja arrogância de nenhum lado", disse Matthei à emissora TVN. Ela afirmou que seria um "milagre" se ela fosse eleita. "Pela maneira que começamos, na última hora (...), seria uma façanha (vencer)."

Pouco depois de admitir a derrota, quando partidários de Bachelet comemoravam nas ruas, a candidata conservadora afirmou que visitaria a presidente eleita pessoalmente, conforme já havia prometido. Discursando a seus apoiadores, Matthei assumiu "toda a culpa política" pela perda da eleição.

A ex-dirigente estudantil Camila Vallejo, eleita deputada pelo Partido Comunista em novembro, pediu que o voto se torne obrigatório novamente no Chile. "Sou partidária da volta ao voto obrigatório, de que todos estejamos automaticamente inscritos nos registros eleitorais e tenhamos a obrigação de votar - mas, se não quisermos, possamos nos retirar do registro", disse no Estádio Bicentenário, onde votou ontem.

AGRESSÃO

O ex-candidato conservador à presidência chilena Pablo Longueira, que abandonou a disputa 16 dias após vencer as primárias da Aliança, em julho, foi agredido na manhã de ontem quando foi votar.

De acordo com a polícia, quatro pessoas foram detidas após cuspir no político e gritar palavras de ordem contra ele. Poucos minutos depois, Matthei chegou ao mesmo centro eleitoral para votar e, enquanto falava com a imprensa, foi interrompida por uma mulher que gritava críticas contra a candidata. Matthei pediu que ela falasse depois e não interrompesse o trabalho dos jornalistas.

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