Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Chilenos entram em terreno desconhecido

Sebastián Piñera já não é o favorito incontestável e terá de buscar apoio nos extremos, assim como Alejandro Guillie

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2017 | 05h00

“Estamos satisfeitos”, declarou Sebastián Piñera, depois que os resultados do primeiro turno das eleições no Chile foram divulgados. Poucos acreditaram nele. Piñera, o candidato presidencial da coalizão Chile Vamos, obteve apenas 37% dos votos, bem menos que os 44% previstos pelas pesquisas. Ele disputa segundo turno no dia 17 com Alejandro Guillier, que representa a coalizão Força da Maioria, de centro-esquerda, e obteve 23% dos votos. Piñera, empresário bilionário que foi presidente de 2010 a 2014, continua sendo o favorito, mas não muito. Os surpreendentes sucessos do primeiro turno vêm da área periférica da política chilena. A maior dúvida que o país enfrenta é saber até que ponto esses extremos vão influenciar o próximo governo.

Piñera conquista maior bancada no Congresso chileno, mas não terá maioria

O terceiro lugar, com 20% dos votos, ficou com Beatriz Sánchez, uma jornalista de esquerda que jamais ocupou cargos eletivos. Seu grupo recentemente formado, a Frente Ampla, será uma força. Nas eleições para o Congresso, realizadas também no domingo, ela conquistou 20 assentos na Câmara dos Deputados, bem mais do que os 3 atuais, e terá seu primeiro senador. “O Chile quer mudança e isso se manifestou na votação de domingo”, disse Sánchez.

As eleições também deram um impulso ao destino de José Antonio Kast, um direitista que superou as expectativas ao conquistar 8% dos votos. Ele se declara fã de Augusto Pinochet, o brutal ditador dos anos 70 e 80. Em contraste, Carolina Goic, a candidata do centrista partido Democrata-Cristão, uma integrante da coalização Nova Maioria, liderada pela atual presidente, Michelle Bachelet, recebeu menos de 6% dos votos.

Esquerda radical será peça-chave em novo cenário político chileno 

Piñera e Guillier agora terão de buscar apoio nos extremos do espectro político. Isso será mais difícil para Piñera, que concorreu como um centrista tranquilizador, prometendo incentivar o crescimento por meio da desregulamentação e de um sistema fiscal mais simples, ao mesmo tempo investindo mais nos serviços públicos, tais como educação. Guillier pode achar mais fácil conquistar adeptos da Frente Ampla, embora não esteja claro se os movimentos de base que formam a coalizão vão endossá-lo. Eles romperam com a Nova Maioria de Bachelet porque achavam tímidas suas reformas em educação, impostos e pensões. Guillier não está propondo nada muito mais ousado.

Os votos para Carolina Goic são outro prêmio que podem ir diretamente para Piñera. Os analistas acreditam que muitos de seus partidários de centro estão relutantes em apoiar uma esquerda reforçada. O novo Congresso tornará mais difícil o trabalho do próximo presidente. Ele é o primeiro a ser eleito sob um sistema de representação proporcional, destinado a dar mais assentos a partidos menores.

Para Entender: o Chile em cinco pontos

O Vamos Chile conquistou a maior parte dos assentos e faltaram apenas cinco integrantes para que se tornasse maioria na Câmara. Mas Piñera teria mais dificuldades que Guillier em fechar acordos com partidos de centro-esquerda e esquerdistas, como a Frente Ampla, que deve seu sucesso no Congresso ao novo sistema. O resultado inesperado das eleições significa que um dos países mais estáveis e prósperos da América Latina está entrando em um período de incerteza à qual está desacostumado. / TRADUÇÃO DE CLÁUDIA BOZZO 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.