Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Chilenos entre os saques e a repressão

Uso do Exército durante estado de emergência alimentou adesão a protestos contra Piñera

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2019 | 09h00

SANTIAGO - A fachada impecável da pizzaria em que trabalha o garçom e estudante de engenharia Brayan Jara, bem em frente à Praça Itália, epicentro dos protestos no Chile, contrasta com a das lojas vizinhas, pichadas, saqueada e depredadas, quando não incendiadas. A explicação para sorte tão diferente está na afinidade de seu restaurante com a revolta. 

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Na vitrine do Bella Italia, onde uma pizza média, do tamanho de um prato, sai por 4,5 mil pesos (R$ 24), foi colado um cartaz em que se lê “turno ético”, algo como “funcionamento responsável”. 

Aos manifestantes mais agressivos, o estabelecimento argumenta que serve produtos saudáveis e faz preços promocionais. Funciona como uma espécie de salvo conduto para uma das formas de violência hoje no Chile, a contra o patrimônio.

A outra é a das forças de segurança, que respondem às pedras arremessadas contra blindados com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e disparos de balas de borracha. Por isso, parte dos manifestantes usa capacetes e óculos de proteção.

Ainda assim, dezenas ficaram parcialmente cegos. Mais de 140 sofreram ferimentos nos olhos e pelo menos 24 perderam completamente a visão em um olho, segundo o hospital de oftalmologia Del Salvador. Isso levou o centro médico a pedir aos “carabineros” que mudem seu protocolo.

Jara fecha às 15 horas o Bella Italia para encorpar os protestos que viu crescer, especialmente depois do estado de emergência decretado pelo presidente Sebastián Piñera, após dezenas de estações de metrô serem incendiadas, no dia 18, em protesto contra o aumento equivalente a R$ 0,16. 

A medida de emergência de Piñera durou até o dia 27. A presença de militares nas ruas levou à maior manifestação no Chile, no dia 25, com 1,2 milhão de pessoas, a mais expressiva desde o fim da ditadura (1973- 1990). A popularidade de Piñera caiu para 14%.

“Essa é uma geração que está à frente dos atos e não viveu com o medo de morrer por pensar diferente. E há coisas que dão mais medo do que a polícia. Se aposentar no Chile, por exemplo”, afirma Jara. 

Ele ganha 300 mil pesos (R$ 1.600), pouco menos que o salário mínimo, e conta com outros 300 mil pesos em gorjeta. Ao andar só de bicicleta, ele evita gastar outros 60 mil pesos (R$ 324) em transporte. A maior parte dos estabelecimentos vizinhos à pizzaria soldou barras sobre as cortinas de ferro retráteis, em uma tentativa de evitar saques – e desistiu de funcionar.

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