Rodrigo Cavalheiro|Estadão
Mudanças no Chile virão pela 'razão ou pela força', diz pichação Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Mudanças no Chile virão pela 'razão ou pela força', diz pichação Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Chilenos vivem sob 'apartheid' educacional, dizem analistas 

Sistema torna difícil que estudantes de escolas públicas cheguem à universidade

Imagem Rodrigo Cavalheiro

Rodrigo Cavalheiro , Enviado Especial, Santiago

Atualizado

Mudanças no Chile virão pela 'razão ou pela força', diz pichação Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Quando o blindado que lança jatos d’água e bombas de gás deu sinal de que abandonaria o vaivém pela Avenida Bernardo O’Higgins, onde fica o Palácio La Moneda, para entrar na estreita Rua San Francisco, no centro de Santiago, dezenas de jovens dispararam em sentido contrário pela viela.

O piloto do veículo militar recuou, prevendo que ficaria exposto a arremesso de pedras e utensílios domésticos das janelas dos prédios. Mas o estampido já tinha provocado quedas e deixado alguns pisoteados. Um manifestante chamava atenção por correr de olhos fechados.

Ignacio Pinto, de 24 anos, tentara minutos antes chegar ao palácio presidencial, a duas quadras dali. Durante confronto com “carabineros” que isolam com barreiras a sede de governo, foi atingido no rosto por gás pimenta. 

“Não sabia que substância havia no spray e lavei o rosto com água, o que piorou o efeito. Por isso não consigo ver”, disse ao Estado, sem enxergar o interlocutor. Esta região da cidade tornou-se um foco permanente de confronto, o que levou o hotel da esquina, o cinco estrelas Plaza San Francisco, a fechar. A uma quadra, uma unidade do Mercure foi incendiada.

“Não sou partidário da violência, mas entendo a revolta se uma geração ou duas foi exposta a um cenário em que não pode entrar na universidade”, afirmou o jovem, que deixou uma cidade pequena no extremo norte do país para viver na capital com a mãe e um irmão. 

A disparidade de qualidade entre ensino privado e público no Chile torna raro um estudante de escola pública chegar à universidade. Ignacio estudou em um escola particular que custava 250 mil pesos (R$ 1.345) por mês. Paga hoje 8 milhões de pesos (R$ 43 mil) por ano por seu curso na Universidade Andrés Bello, no qual acaba de entrar e do qual deve sair em seis anos. A universidade cancelou as aulas, que só devem ser retomadas em três semanas. 

Ignacio representa a face mais vista nas marchas, a dos jovens e adolescentes. Uma das exigências centrais das mobilizações – que começaram com estudantes secundaristas contrários ao aumento no metrô e logo se tornaram difusas – é que o sistema de ensino não tenha tanta disparidade entre público e privado.

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Quem não pode pagar o ensino universitário e recorre a créditos estudantis tem o empréstimo diretamente descontado do salário nos primeiros anos de carreira. Há relatos de que esses “primeiros anos” eventualmente se convertem em três décadas e são pagos como um financiamento qualquer.

Segundo Mario Waissbluth, diretor do centro de estudos Educación 2020, o sistema educacional chileno, embora apresente resultados superiores aos da média latino-americana – tem o melhor índice no último exame Pisa, de 2015 – apresenta como problema central a exclusão.

Ele credita o sucesso dos estudantes chilenos a políticas educativas que praticamente não variaram entre governos de esquerda e direita. Ele reconhece que o país conseguiu reduzir brutalmente a pobreza – de 43%, em 1990, passou para 10% –, mas lamenta o que considera um “apartheid” educacional.

“Temos três tipos de escolas no Chile. As públicas, que recebem 35% das matrículas. As privadas subvencionadas, que recebem 58% e abrigam a classe média. E as particulares pagas, que são caríssimas. Destas saem os futuros gestores, que casam com futuras gestoras e têm gestorezinhos.” 

Nesta última categoria, a dos mais favorecidos, está Ignacio. “Tenho sorte de minha avó poder pagar a mensalidade. Não precisaria estar aqui, mas minha família já foi pobre. Tento estudar em casa enquanto a universidade está fechada, mas não consigo me concentrar diante do que está ocorrendo.” 

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Protestos chilenos têm a mão de Hong Kong, não a de Cuba e Venezuela

Estudantes usam vídeos com dicas de asiáticos; não há sinal de apoio cubano ou venezuelano

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 06h30

Manifestantes chilenos estão aplicando macetes ensinados pelos protestos de Hong Kong. Vídeos em que os manifestantes asiáticos mostram como apagar uma bomba de gás lacrimogêneo, por exemplo, são transmitidos pelas redes sociais no Chile. O engenheiro Matías Pineda, de 26 anos, tem vários no celular. 

“Em Hong Kong eles são incomparavelmente mais organizados. Têm sinais para repassar capacetes e mantimentos. Se jogamos a bomba de gás de volta contra a polícia, o produto químico continua sendo expelido e nos afeta. É preciso apagá-la, com água e bicarbonato”, ensina. Outra tática é sair sempre em grupos e compartilhar a localização por sistemas como o WhatsApp. Assim, é possível saber, por exemplo, se todos chegaram em segurança em casa.

Não há evidência da participação de cubanos e venezuelanos na organização dos atos, como chegou a ser noticiado pela imprensa local. A promotoria negou essa informação. Segundo apurou o Estado entre os órgãos de segurança, esse rumor chegou a circular entre os militares e a informação chegou ao Palácio La Moneda, mas não foi confirmada. Entre os mais de 3 mil detidos até agora, 30 são venezuelanos. Há mais peruanos, por exemplo, entre os presos.

Também não há evidência de que os autores da depredação inicial no metrô de Santiago, no dia 18, tenham sido financiados por governos estrangeiros. A principal suspeita recai sobre grupos anarquistas e antissistema, que aproveitaram a manifestação iniciada por estudantes secundaristas contra o aumento na tarifa.

Ontem, novos confrontos ocorreram em Santiago, na Avenida Bernardo O’Higgins, que liga o centro da manifestação, na Praça Itália, ao Palácio La Moneda. O ato em defesa no sistema de ensino foi pacífico até as 19 horas, quando blindados avançaram sobre cerca de 500 manifestantes com jatos de água e bombas de gás.

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