China abafa escândalo envolvendo líder

Julgamento da mulher de dirigente do PC chinês, ré confessa de homicídio, é tratado de maneira discreta pela imprensa oficial

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE/ PEQUIM , O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2012 | 07h42

O julgamento de Gu Kailai, mulher do ex-cacique comunista Bo Xilai, está no topo das páginas de jornais e manchetes de TV em todo o mundo, mas recebe referências homeopáticas da imprensa chinesa, controlada pelo governo. O Partido Comunista quer limitar o impacto do caso e ignorar o que ele revela sobre corrupção e os privilégios das famílias que detêm o poder.

Ontem, a mídia chinesa não trazia referências ao fato de que Gu começará a ser julgada hoje sob acusação de assassinar o empresário britânico Neil Heywood. Nos microblogs do país, os nomes "Gu Kailai" e "Bo Xilai" estão bloqueados há meses.

Os poucos posts sobre o assunto publicados ontem usavam subterfúgios para contornar a censura. Textos que comparavam o julgamento de Gu ao de Jiang Qing, mulher de Mao Tsé-tung que chefiava o Bando dos Quatro, eram imediatamente deletados.

Como ocorre em casos politicamente sensíveis, toda a imprensa do país deve usar como fontes de informação os textos produzidos pela agência de notícias Xinhua ou outros órgão controlados diretamente pelo poder central, como a rede CCTV, Diário do Povo ou Global Times.

A última informação da Xinhua sobre o assunto foi veiculada no dia 26 de julho, quando a agência anunciou que Gu seria julgada sob acusação de homicídio - sem informar a data. "Os fatos são claros e as provas, irrefutáveis e substanciais", disse o texto. Segundo a versão oficial, o filho único do casal, Bo Guagua, teve "conflitos econômicos" com Heywood, o que teria levado sua mãe a temer por sua segurança.

Poucos acreditam nessa versão e suspeitam que o britânico se chocou com Gu ao exigir somas crescentes para enviar ao exterior recursos obtidos de maneira irregular pela família. O britânico era ligado ao casal havia quase 20 anos e os ajudou a obter vagas para Guagua em escolas de elite da Inglaterra.

O Global Times publicou um editorial no dia 27 de julho, no qual tratava o julgamento como um exemplo de que todos são iguais perante a lei chinesa: "Até agora, o caso enviou uma mensagem à sociedade de que ninguém, independentemente de seu status ou poder, pode ser eximido de punição caso se comporte de maneira inescrupulosa."

Mas a grande crítica ao processo decorre do fato de que Gu não terá direito a ampla defesa e que o veredicto já é conhecido antes mesmo de o julgamento começar. A dúvida não é se ela será condenada, mas sim qual será a extensão de sua pena, que pode variar de 15 anos de prisão à execução.

Pressão. Jeremy Cohen, professor da New York University e especialista no sistema legal chinês, observa que testemunhas de acusação raramente aparecem nas cortes do país. Seu depoimento é lido pelos promotores e não há possibilidade de elas serem questionadas pela defesa.

Gu não teve nem mesmo a chance de escolher quem irá defendê-la. O advogado contratado por sua família foi proibido de participar do julgamento e a acusada será representada por dois profissionais indicados pela corte.

Advogada de sucesso, Gu escreveu em 1998 um livro no qual elogiava a celeridade do sistema judiciário chinês, da qual será vítima agora. "Desde que se saiba que você, fulano, matou alguém, você será preso, julgado e executado", escreveu.

A sessão começaria na noite de ontem no Brasil, em Hefei, capital da Província de Anhui, a 1.000 quilômetros de Chongqing, onde o crime ocorreu. A expectativa é que a decisão seja anunciada amanhã.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.