China acena com possível autorização para que ativista cego estude nos EUA

O governo chinês afirmou ontem que o ativista cego Chen Guangcheng pode se candidatar a estudar no exterior "como qualquer outro cidadão chinês", o que abriu possibilidade de solução do impasse diplomático que envolve EUA e China. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse em Pequim ter sido "encorajada" pelo anúncio, mas ressaltou que os detalhes de um provável acordo nesse sentido ainda estavam sendo negociados.

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2012 | 03h04

A porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, observou que Chen já tem a oferta de uma bolsa de estudos de uma universidade americana. Se ele realmente for para os EUA, seu destino mais provável é a New York University (NYU), onde seu amigo Jerome Cohen é professor de Direito.

Cohen conhece Chen desde 2005 e aconselhou o ativista por telefone durante os seis dias em que ele permaneceu na Embaixada dos EUA em Pequim, até ser transferido para um hospital na quarta-feira. Em entrevista à CNN ontem, Cohen declarou que ficaria "orgulhoso" de receber Chen como acadêmico visitante na NYU.

Segundo Nuland, as autoridades chinesas indicaram que aceitarão a solicitação de Chen para emissão de documentos de vigem - sua mulher e filhos não têm passaporte. "O governo dos EUA daria então prioridade aos pedidos de visto para ele e sua família", acrescentou.

Em declarações transmitidas por seu amigo Guo Yushan, Chen afirmou ontem que nunca teve intenção de pedir asilo político nos EUA. "Ele tem uma carta-convite da NYU e, como uma pessoa livre, ele quer viajar por um período e depois voltar para a China."

O ativista também disse que em nenhum momento foi coagido a deixar a embaixada dos Estados Unidos e saiu do local por sua própria vontade.

De acordo com as declarações transmitidas por Guo, "Chen é extremamente grato à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, ao embaixador Gary Locke e a todos aqueles que o ajudaram e nunca os culpou direta ou indiretamente".

Isolado no hospital e impossibilitado de se comunicar com funcionários americanos, Chen tinha dito na quinta-feira que só saiu da representação diplomática dos EUA depois de ser informado que sua mulher seria enviada de volta à Província de Shandong, onde forças de segurança ameaçavam espancá-la até a morte.

O ativista deixou a embaixada no mesmo dia da chegada a Pequim de Hillary, que participou nos últimos dois dias do Diálogo Econômico e Estratégico que os dois países realizam todos os anos desde 2009. O acordo inicial para solucionar o impasse diplomático previa sua permanência na China, sua mudança para uma outra província e a matrícula em uma faculdade de Direito. Horas depois de chegar ao hospital e se reencontrar com a mulher, Yuan Weijing, e os dois filhos, Chen mudou de ideia. Yuan disse a ele que havia sido mantida por dois dias amarrada a uma cadeira, depois que os guardas que vigiam sua casa na Província de Shandong descobriram que Chen havia escapado da prisão domiciliar ilegal em que era mantido havia 19 meses. Segundo declarações do ativista à Associated Press, os seguranças haviam ameaçado espancá-la.

Ontem, Chen continuava com sua família no Hospital Chaoyang, em Pequim, recuperando-se de fraturas sofridas durante sua fuga na noite do dia 22, quando pulou o muro que cerca sua casa e caminhou durante horas até encontrar a ativista He Peirong, que o levou de carro à capital.

Apesar de não conseguir receber visitas de amigos, Chen podia usar o telefone e ontem se encontrou com funcionários do governo americano. O ativista também se reuniu com um enviado do Partido Comunista da China, que foi ouvir suas denúncias contra as autoridades locais de Shandong, que tentam silenciá-lo há sete anos.

Cego desde a infância, Chen é um advogado autodidata que ganhou celebridade em 2005 ao iniciar uma batalha legal em nome de 7.000 mulheres obrigadas a fazer abortos e esterilizações em nome da política de filho único, procedimentos proibidos pela legislação chinesa.

Depois de ser mantido em prisão domiciliar por seis meses, ele foi condenado em 2006 a 4 anos e 3 meses de prisão sob a acusação de atrapalhar o trânsito, em um julgamento considerado uma farsa por advogados e ativistas de direitos humanos. Quando saiu da prisão, foi confinado à sua casa, vigiado dia e noite por capangas que impediam a entrada na vila rural de diplomatas, jornalistas e até celebridades como o ator Christian Bale, astro das versões recentes de Batman.

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