AP Photo/Wong Maye-E
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China acusa ex-presidente da Interpol que estava desaparecido de aceitar suborno

Em Pequim, Meng pediu demissão da organização policial e é o caso mais recente de alto funcionário chinês a cair pela campanha contra a corrupção iniciada por Xi Jinping desde que chegou ao poder no fim 2012

Steven Lee Myers, Chris Buckley THE NEW YORK TIMES / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2018 | 09h08

PEQUIM - Um ano atrás, o chefe da Interpol, o chinês Meng Hongwei, observou como o presidente da China, Xi Jinping, disse orgulhosamente à organização que seu país desempenharia um papel cada vez maior na aplicação global da lei. A China está entre os países mais seguros do mundo e “respeita as regras internacionais”, disse Xi a mil delegados da assembleia-geral da Interpol em Pequim.

Agora, Meng está enredado no pouco transparente e altamente politizado sistema jurídico que, segundo os críticos, deveria em primeiro lugar tê-lo desqualificado da nomeação para a Interpol. Na segunda-feira, 8, o ministro chinês de Segurança Pública, Zhao Kezhi, disse que Meng foi acusado de aceitar subornos e de outros crimes.

Nem Zhao nem o Ministério das Relações Exteriores deram detalhes das supostas transgressões de Meng, ou disseram se elas tinham ocorrido antes ou depois de sua eleição como presidente da Interpol, em 2016.

Seja como for, o desaparecimento misterioso de Meng deixou uma nuvem de incerteza pairando sobre as autoridades chinesas e os organismos internacionais que lhes dão cada vez mais papéis de liderança. Foi um golpe espetacular e auto infligido nos esforços da China para provar que está pronta para papéis mais proeminentes em assuntos globais.

“Imagine se a China, de alguma forma, algum dia, conseguisse nomear um secretário-geral da ONU, e então ele também um dia desaparecesse”, disse Michael Caster, pesquisador e defensor de direitos humanos em Bangcoc que estuda o sistema legal chinês. “A ousadia com a qual a China opera, fora de todo conceito ou procedimento de normas internacionais, é realmente preocupante.”

A maior questão que paira sobre o destino de Meng é saber por que o governo de Xi aprovou a queda de um homem que havia proposto para liderar a organização, que coordena as atividades de segurança entre os 192 países-membros. Caster comparou a maneira como a China lidou com Meng às acusações criminais que encerraram a carreira de Dominique Strauss-Kahn como diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

As acusações neste caso – envolvendo acusações de abuso sexual de uma funcionária de um hotel em Nova York em 2011 – foram tratadas de forma transparente, algo ausente nos processos chineses, especialmente em casos politicamente delicados. As acusações criminais acabaram sendo abandonadas contra Strauss-Kahn, que fechou um acordo num processo civil.

Meng foi encarregado pela Comissão Nacional de Supervisão, um órgão anticorrupção criado para intensificar a campanha do país contra o suborno e garantir uma cobertura legal mais firme. Os tribunais e procuradores da China respondem ao Partido Comunista e raramente rejeitam conclusões dos investigadores anticorrupção. A detenção de Meng é quase equivalente a uma condenação.

Somente após dias de silêncio – e uma incomum entrevista coletiva dada pela mulher de Meng – a China reconheceu que ele estava em seu poder e apresentou sua renúncia à Interpol.

Meng já se tornou um dos exemplos mais espetaculares de como o empenho de Xi pelo controle oferece pouca segurança para funcionários, mesmo altos representantes de organizações globais. A nomeação de Meng, como sua detenção, quase certamente teve a aprovação de Xi. Zhao, o ministro da Segurança Pública, insinuou que os delitos de Meng eram parte dos “resíduos tóxicos” deixados por Zhou Yongkang, ex-chefe de segurança interna sentenciado à prisão perpétua sob acusações de corrupção em 2015.

Mas até duas semanas atrás, Meng, de 64 anos, estava aparentemente no auge de uma carreira construída para melhorar o alcance internacional e a respeitabilidade da China na aplicação da lei. Meng regularmente dava discursos promovendo as prioridades da Interpol e a contribuição da China. Além de sua posição na Interpol, Meng era vice-ministro de segurança pública e parecia ter recebido a promoção pela mão firme ao administrar os crescentes interesses e prioridades do policiamento internacional da China. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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