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China ameaça retaliar Noruega por premiação a Liu Xiaobo

Setor energético seria o mais afetado; boicote poderia prejudicar até mesmo exploração de petróleo no Brasil

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

A escolha do dissidente chinês Liu Xiaobo como Prêmio Nobel da Paz teria o potencial de ameaçar um acordo comercial que vinha sendo negociado entre a Noruega e a China. Até mesmo a exploração de petróleo na costa brasileira poderia sentir os efeitos da premiação. Isso porque Oslo e Pequim haviam fechado um contrato de cooperação exatamente para a exploração do petróleo na Bacia de Campos. O acordo no Brasil foi fechado em US$ 3 bilhões, mas ainda aguarda aprovação do governo chinês.

Ontem, Pequim mandou um recado à Noruega: as relações bilaterais podem ser afetadas. O governo da China já havia rompido com uma tradição de décadas e mandou um emissário há poucas semanas a Oslo para alertar ao comitê do Nobel que o prêmio "azedaria" as relações entre Pequim e a Noruega.

Em Oslo o temor é de que uma das primeira vítimas seja a Statoil, empresa de gás e petróleo da Noruega.

Já o governo, diante das ameaças, começou a mapear por onde poderia vir a sanção e confirmou ao Estado que não seria difícil ver um "congelamento" da cooperação nessas áreas por alguns meses. A diplomacia norueguesa se mobilizou para tentar evitar que isso ocorra.

Ontem, Pequim convocou o embaixador da Noruega na China para pedir explicações. Mas o ministro de Relações Exteriores norueguês, Jonas Gahr Stoere, emitiu um comunicado indicando que seu país dava "os parabéns a Liu pelo seu trabalho na promoção da democracia e dos direitos humanos".

Ele também insistiu que seu governo não tem influência sobre a escolha do premiado. "É importante sublinhar o óbvio, a clara distinção entre o comitê Nobel independente, que toma as decisões 100% independentes, e o governo da Noruega, que desenvolve e aprecia as relações bilaterais com a China", disse Stoere. Para ele, portanto, a Noruega "não tem de pedir perdão". "Não há base para que haja um impacto direto das relaçoes da China com a Noruega", afirmou o ministro. "Acho que, se isso ocorrer, terá um impacto negativo para a reputação da China", completou.

O ganhador do prêmio é escolhido pelos cinco membros do comitê do Nobel, eleitos pelo parlamento norueguês. O comitê, neste ano, é liderado por Thorbjørn Jagland, ex-primeiro-ministro do país.

Pequim deixou claro ontem que não está convencida da independência. Outra vítima, pelo menos em termos retóricos, poderia ser um acordo de comércio que se negocia entre os dois países. O tratado estava sendo visto como um ensaio geral para um eventual acordo mais amplo entre a União Europeia (UE) e a China.

Mas há quem duvide de uma represália efetiva por parte do governo chinês. Isso porque a segunda maior economia do mundo é muito dependente de energia vinda do exterior e os locais onde pode conseguir estão cada vez mais restritos.

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