China anuncia hoje sentença de mulher de político

Gu Kailai, casada com ex-líder do Partido Comunista e acusada de matar um empresário britânico, pode ser condenada à morte

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h03

O desfecho do julgamento de maior voltagem política da China em três décadas será conhecido na manhã de hoje, quando a corte da cidade de Hefei anunciará a sentença de Gu Kailai, a mulher do ex-líder comunista Bo Xilai acusada de matar o britânico Neil Heywood em novembro.

Candidato a ocupar uma das nove cadeiras do órgão máximo de comando da China até cair em desgraça em março, Bo Xilai é o grande ausente de todo o caso, no qual seu nome não foi mencionado nenhum vez. O julgamento também ignorou suspeitas de corrupção, a natureza dos laços econômicos da família com Heywood e os privilégios que cercam os dirigentes do Partido Comunista.

A punição de Gu pode variar de 15 anos de prisão à execução, mas a expectativa é que receba pena de morte suspensa por dois anos, depois dos quais ela seria convertida à prisão perpétua.

Muitos avaliam com ceticismo a narrativa oficial das razões pelas quais Gu teria decidido envenenar o britânico em um quarto de hotel de Chongqing, a megacidade de 30 milhões de pessoas que era governada por seu marido.

O ponto mais frágil da versão costurada por Pequim é o que sustenta que Gu matou Heywood depois de ele ameaçar a segurança de seu único filho, Bo Guagua, de 24 anos, com quem o britânico teria desavenças em torno de "interesses econômicos". Segundo essa versão, a vítima do homicídio teria detido Guagua de maneira ilegal na Grã-Bretanha para chantagear sua família. Mas na época em que o homicídio ocorreu, o filho de Gu Kailai já havia deixado a Grã-Bretanha e estudava na Kennedy School of Government da Universidade Harvard, nos EUA.

"O fato de que Heywood estava disposto a encontrar Gu em pessoa e tomar chá e álcool com ela indica que Heywood não estava a ponto de matar o filho dela", escreveu na semana passada a jornalista Hu Shuli, editora da revista financeira Caixin, considerada a publicação mais independente. Em sua avaliação, o retrato de uma mãe sacrificando-se pelo filho não é convincente. O britânico vivia em Pequim com a mulher chinesa e os dois filhos do casal.

Quando o crime veio à tona, três meses depois de ser cometido, a especulação mais frequente era a de que Gu e Heywood tinham desavenças em relação à comissão cobrada pelo britânico para enviar ao exterior recursos obtidos de maneira ilegal pela família chinesa. Heywood conhecia o casal desde os anos 90, quando Bo Xilai era prefeito de Dalian, capital da Província de Liaoning.

A informação de que Heywood havia sido assassinado só apareceu em fevereiro, quando o ex-braço direito de Bo Xilai, Wang Lijun, se refugiou no Consulado dos EUA em Chengdu, capital da Província de Sichuan. Wang havia sido afastado alguns dias antes da chefia da Segurança Pública da cidade e temia ser assassinado a mando de Bo, a quem teria apresentado a suspeita de que Gu era responsável pela morte de Heywood.

Até então, a versão oficial era a de que o britânico havia morrido vítima do consumo excessivo de álcool, apesar de amigos sustentarem que ele era abstêmio. Wang Lijun havia comandado a campanha de combate ao crime organizado em Chongqing.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.