China aposta no renascimento do confucionismo

O comunismo perdeu a capacidade de inspirar os chineses e os ideais de Confúcio são alternativa à ideologia de Estado da nova China

Daniel Bell, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Há quarenta anos, seria suicídio falar bem de Confúcio em Pequim. Ele era considerado o inimigo reacionário e todos os chineses eram instados a combatê-lo. O próprio presidente Mao Tsé-tung foi fotografado na capa de um jornal revolucionário que anunciava a profanação da tumba de Confúcio em Qufu. Minha universidade era um reduto de esquerdismo radical.

Os tempos mudaram. Hoje, o Partido Comunista Chinês aprova um filme sobre Confúcio, interpretado por Chow Yun-Fat, galã do cinema chinês. O mestre é representado como um astuto comandante militar que também ensina valores humanos e progressistas, com uma queda pela beleza feminina. O que tem isso a ver com o futuro político da China? Confúcio foi um enorme sucesso de bilheteria e muitos começaram a achar que o renascimento do confucionismo seguirá o mesmo caminho das campanhas contra Confúcio durante a Revolução Cultural.

Mas talvez não passe de um filme ruim. Confúcio recebeu o beijo da morte quando empatou com Avatar nas bilheterias. Um voto para Confúcio foi considerado um voto contra as heroicas criaturas azuis do espaço exterior. Mas, no longo prazo, é possível que partidários do renascimento de Confúcio estejam do lado certo da história.

Na Revolução Cultural, a palavra Confúcio muitas vezes foi apenas usada como rótulo para atacar os inimigos políticos. Hoje, o confucionismo exerce uma função política mais legítima e poderá contribuir para criar um novo alicerce moral das normas políticas na China. O comunismo perdeu a capacidade de inspirar os chineses, e eles estão cada vez mais convencidos de que o que ocupará o seu lugar deverá ter como base as autênticas tradições da China.

Enquanto tradição política dominante no país, o confucionismo é a alternativa óbvia.

Partido "confucionista". O partido ainda não se definiu como Partido Confucionista Chinês, mas está muito perto de abraçar oficialmente o confucionismo. A Olimpíada de 2008 enfatizou temas do pensador e reduziu toda referência à experiência chinesa com o comunismo. Os responsáveis pela escola do Partido Comunista, construída recentemente em Xangai, explicam com orgulho que o edifício foi projetado segundo um pensador confucionista. Ao mesmo tempo, o governo promove simbolicamente o confucionismo no exterior por meio do Instituto Confúcio, um centro de língua e cultura chinesas.

Evidentemente, a resistência não desapareceu. Os quadros mais velhos do partido, ainda influenciados pela antipatia maoista pela tradição, condenam as iniciativas que procuram promover ideologias estranhas à rígida estrutura maoista. Mas os mais jovens, entre 40 e 50 anos, em geral apoiam essas iniciativas, e o tempo está do lado deles. É fácil esquecer que o Partido Comunista Chinês, com 76 milhões de inscritos, é uma organização enorme e diversificada. O partido em si está se tornando mais meritocrata - agora, encoraja os melhores estudantes a se inscrever - e o aumento da ênfase nos quadros de nível superior deverá criar mais simpatia pelos valores confucionistas.

Mas o renascimento do confucionismo não é promovido apenas pelo governo. Ao contrário, o governo também reage a desdobramentos que escapam a seu controle. Tem havido um renascimento do interesse no confucionismo entre os acadêmicos e no equivalente chinês da sociedade civil. Este renovado interesse é movido em parte por preocupações normativas.

Milhares de experiências no campo da educação em todo o país promovem o ensino dos clássicos confucionistas às criancinhas, tendo como pressuposto o fato de que uma educação melhor nas áreas humanas melhora a virtude daquele que aprende. Mais controvertido - porque a discussão aberta dessas questões é ainda um ponto sensível na China - é o fato de os pensadores confucionistas apresentarem propostas de reforma constitucional com a finalidade de humanizar o sistema político chinês.

Mas o problema não é apenas o governo chinês. Será talvez uma luta árdua convencer as pessoas no Ocidente de que o confucionismo pode oferecer um caminho progressista e humano para a reforma política na China. Por que o renascimento do confucionismo preocupa tanto os ocidentais? Um dos motivos é talvez um tipo de narcisismo. Durante a maior parte do século 20, liberais e marxistas chineses aderiram a uma crítica total de sua herança cultural e buscaram inspiração no Ocidente. Talvez os ocidentais tenham se sentido envaidecidos, mas a simpatia é bem menor agora que os chineses estão se orgulhando de suas tradições e refletindo sobre a reforma social e política. Uma compreensão maior e um espírito mais aberto poderão ajudar a resolver este problema.

Outro motivo é talvez o fato de que o renascimento do confucionismo é muitas vezes relacionado ao renascimento do "fundamentalismo" islâmico e suas tendências contrárias ao Ocidente. E além disso, é possível que haja também uma associação com o renascimento de um "fundamentalismo" cristão míope e intolerante. Mas o renascimento do confucionismo na China não se opõe às posições sociais liberais. O que ele propõe é uma alternativa às posições políticas ocidentais, e esta pode ser a principal preocupação. Mas é uma preocupação decorrente de um erro honesto: a pressuposição de que um apoio menor à democracia de estilo ocidental implica um maior apoio ao autoritarismo. Na China, rotular o debate em termos de "democracia" em contraposição a "autoritarismo" exclui possibilidades que atraem os reformadores políticos confucionistas.

Estes, em geral, são favoráveis a uma maior liberdade de expressão na China. O que eles questionam é a democracia no sentido de eleições no estilo competitivo ocidental como mecanismo de escolha dos governantes mais fortes do país. Um problema evidente do princípio de "uma pessoa, um voto" é que a igualdade acaba onde começa a comunidade política; os que estão fora, são negligenciados.

O pressuposto é que líderes políticos democraticamente eleitos estejam preocupados com a nação; eles devem servir apenas à comunidade de votantes. Até as democracias que funcionam bem tendem a se preocupar com os interesses dos cidadãos e a negligenciar os interesses dos estrangeiros. Mas os líderes políticos, principalmente os de grandes países como a China, tomam decisões que afetam o restante do mundo (como no caso do aquecimento global), e por isso precisam levar em conta os interesses do restante do mundo.

Por conseguinte, os confucionistas reformistas apresentaram ideias políticas que supostamente funcionam melhor do que a democracia de estilo ocidental no que se refere a garantir os interesses de todos os que são afetados pela política do governo. Seu ideal não é um mundo em que todos são tratados de maneira igualitária, mas onde os interesses dos não votantes serão mais respeitados do que na maioria das democracias preocupadas com os interesses da nação.

E o valor fundamental para a realização dos ideais políticos globais é a meritocracia, no sentido de igualdade de oportunidade na educação e no governo. O princípio fundamental é que todos têm potencial para tornar-se moralmente exemplares, mas, na vida real, a capacidade de fazer julgamentos competentes e moralmente justificáveis varia segundo as pessoas, e uma tarefa importante do sistema político é identificar os que têm capacidade acima da média.

Os pensadores confucionistas avançaram propostas de um Parlamento meritocrático, em que os deputados seriam escolhidos por mecanismos como exames livres e imparciais competitivos, que teriam a finalidade de representar os interesses dos não votantes negligenciados por estrategistas escolhidos pela via democrática. Em termos políticos, a maioria das pessoas acredita que a China deveria se parecer mais com o Ocidente. Mas talvez um dia possamos esperar que o Ocidente se pareça mais com a China.

É PROFESSOR DE FILOSOFIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE TSINGHUA, EM PEQUIM

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