China avalia apoio à guerra no Afeganistão

Com o fim, provavelmente iminente, da guerra do Afeganistão (ou melhor, da primeira fase dessa guerra), os grandes países começam a "fazer seu balanço". A Rússia de Putin diz que manobrou brilhantemente. O Paquistão se pergunta: a audaciosa aposta do presidente Musharraf não foi arruinada pela derrota muito rápida dos talebans? E a China? A China também apoiou a coalizão anti-Taleban. Ela não se arrepende, mas gostaria que isso fosse valorizado e que a "coalizão", ou seja, os Estados Unidos lhe "pagassem seu salário". A China possui, em seu extremo oeste (a província de Xinjiang, que fica perto da Ásia Central e, portanto, do Paquistão, dos países muçulmanos da ex-União Soviética e, um pouco mais longe, do Afeganistão) islamitas separatistas, os uigures. Esses uigures, segundo a China, teriam relações com os grupos islamitas do terrorismo internacional: "Várias centenas de terroristas de Xinjiang foram para o Paquistão para os campos de Bin Laden". Duas organizações uigures teriam relações com os seguidores de Bin Laden: o "Movimento Islamita do Turcomenistão Oriental" e o "Uigure da Ásia Central". A China não pára de repetir esse tipo de informação. Podemos concluir que o enorme esforço que ela fez para que se identifique o "separatismo" uigure com o "terrorismo" internacional não convenceu Washington. Até mesmo George W. Bush, quando foi a Xangai, não caiu na retórica de seus anfitriões chineses. E Mary Robinson, alta representante das Nações Unidas para os Direitos Humanos, foi categórica quando esteve em Pequim. Na verdade, Robinson declarou que estava preocupada com a maneira pela qual alguns países do mundo combatem o terrorismo e que ela não escondia sua preocupação com as populações que ela não considerava "terroristas", os uigures chineses e os tibetanos. No que diz respeito aos benefícios recebidos pela China, cita-se somente um certo "relaxamento" psicológico. No início do mandato Bush, Washington era claramente agressivo. Hoje, há mais moderação. Mas outros temores atormentam Pequim. E principalmente este: tudo leva a crer que os americanos querem abrir uma grande passagem na Ásia Central. Ora, essa Ásia Central, rica em petróleo, constituía uma das cobiças da China, a ponto de um dos projetos culturais de Pequim, o de restaurar a antiga e sublime "rota da seda", ter sido muitas vezes interpretado como tentativa de uma passagem chinesa em direção a essa Ásia Central tão cobiçada. Última preocupação dos chineses: a Rússia foi um dos grandes países beneficiários da crise do Afeganistão. Pequim tem, então, uma de suas habituais "crises de ciúme". Principalmente porque Pequim fez esforços para apaziguar suas relações com Moscou. Os chineses estão particularmente furiosos porque Putin "baixou a guarda" em relação ao escudo antimísseis de Bush, enquanto Pequim tinha aconselhado Moscou a se mostrar firme sobre essa questão. E mais, Putin conseguiu a propósito dos chechenos o que Pequim parece não conseguir em relação aos uigures: o apoio de Moscou à coalizão fez calar, de repente, os resmungos que os ocidentais deixavam ouvir sobre a "pacificação" da Chechênia por Putin. Por que dois pesos, duas medidas? Último mistério: não foi somente Washington que abriu um caminho para a Ásia Central. A Rússia também o fez. Mas os diplomatas de Pequim pensam a longo prazo. Sabem que a atual "lua-de-mel Moscou-Washington" poderá ser interrompida quando, por exemplo, os interesses petrolíferos de Moscou e de Washington no Afeganistão (oleodutos) se defrontarem. Paciência... Leia o especial

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