China bloqueia site de 'The New York Times' após denúncia contra premiê

Reportagem dizia que parentes do primeiro-ministro possuem uma fortuna de US$ 2,7 bilhões; Pequim vê 'difamação'

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2012 | 03h06

O acesso aos serviços em inglês e chinês do New York Times foi bloqueado ontem na China, logo depois de o jornal divulgar reportagem segundo a qual a família do primeiro-ministro Wen Jiabao possui uma fortuna estimada em US$ 2,7 bilhões. Sem mencionar o jornal, um representante do governo chinês afirmou que "certa reportagem" tem a intenção de "difamar" a China por "razões ocultas".

Embora o regime não tenha formalmente admitido o bloqueio do site, o corte do acesso foi um dos ataque mais diretos ao jornal, que mantém um serviço em mandarim desde junho. Outros sites de informação e redes sociais, como o Facebook e o Twitter, frequentemente sofrem interrupções na China.

A duas semanas do congresso que definirá a futura liderança do país, a revelação do jornal representa mais um golpe na imagem do Partido Comunista, já afetada pelo escândalo em torno de Bo Xilai, o ex-dirigente de Chongqing acusado de corrupção (mais informações na página A30).

Nas mãos de uma só pessoa, o valor de US$ 2,7 bilhões seria suficiente para colocá-la na 442.ª posição na lista dos mais ricos do mundo da revista Forbes. No mês de junho, a agência de notícias Bloomberg divulgou reportagem que estimava em US$ 450 milhões a fortuna de parentes de Xi Jinping, o homem que assumirá o comando do Partido Comunista, em novembro, e a presidência chinesa, em março. O site da agência foi bloqueado na China.

A reportagem do New York Times tem base em registros de companhias e agências reguladoras e identifica investimentos ou propriedades de uma série de parentes de Wen Jiabao, incluindo mulher, mãe, irmão, cunhado, cunhada, filho e filha. Na maioria dos casos, a identidade dos titulares dos investimentos não era óbvia, já que era realizada por outras empresas, algumas vezes controladas por entidades criadas no exterior.

Com 90 anos, a mãe do primeiro-ministro, Yang Zhiyun, aparece como titular de investimento na seguradora Ping An que tinha valor de US$ 120 milhões em 2007, último ano em que a empresa divulgou relatórios. A fortuna da família cresceu depois de 1998, quando Wen Jiabao se tornou vice-premiê da China.

Cinco anos depois, ele assumiu o posto de primeiro-ministro, que entregará em março.

A Ping An é fonte de US$ 2,2 bilhões dos US$ 2,7 bilhões identificados pelo jornal. O valor está em nome de parentes de Wen ou de pessoas que têm relações com sua família. A empresa abriu capital em 2004, depois que o Conselho de Estado, presidido por Wen, levantou restrições que limitavam sua atuação. Parentes de Wen compraram participação no capital da companhia antes que ela lançasse ações no mercado. Na época, a empresa obteve US$ 1,8 bilhão. Hoje, seu valor é de quase US$ 60 bilhões.

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