China cita bullying para justificar aumento no orçamento militar

Porta-voz do Congresso diz que memória histórica do povo chinês é profunda; em 2011, a alta foi de 11,2%

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2013 | 02h06

A China justificou ontem o aumento de seu investimento militar com o argumento de que o país foi "submetido à dura lição do bullying" no passado, em razão de fragilidades de seu sistema de defesa nacional. "As memórias históricas do povo chinês em relação a esse problema são profundas", afirmou Fu Ying, porta-voz do Congresso Nacional do Povo, cujo encontro anual será aberto hoje em Pequim.

Entre as tarefas dos 2.987 representantes estará a aprovação do orçamento militar, que cresceu a taxas anuais de dois dígitos na maior parte das últimas duas décadas. Em 2011, a alta foi de 11,2%, para US$ 106,4 bilhões, o maior volume após os EUA, que gastam quase cinco vezes mais em defesa.

O tema ocupou grande parte da entrevista coletiva de Fu Ying sobre a agenda do Congresso Nacional do Povo, que ocorre em meio ao agravamento de disputas territoriais da China com seus vizinhos, em especial o Japão. Em resposta a uma pergunta da agência de notícias japonesa Kyodo, Fu Ying ressaltou que a China responderá de maneira "resoluta" a "provocações" de outros países. Segundo ela, a decisão de Tóquio de nacionalizar as ilhas Diaoyu/Senkaku no ano passado contraria o "consenso" alcançado pelos dois países quando restabeleceram as relações diplomáticas, em 1972. O território é reivindicado por ambas as nações, mas está formalmente sob controle japonês.

Fu Ying observou que a área foi "tomada" pelo Japão em 1895, quando a China perdeu a 1.ª Guerra Sino-Japonesa, um dos confrontos a que a porta-voz se referia quando falou em bullying. Depois da derrota de Tóquio na 2.ª Guerra - a qual Fu Ying se referiu como Guerra Antifascistas -, as ilhas deveriam ter sido devolvidas à China, sustentou.

O Congresso vai concluir a transição de poder iniciada pelo congresso do Partido Comunista, em novembro, com a nomeação de Xi Jinping para o cargo de presidente e a de Li Keqiang para o de primeiro-ministro.

Também serão aprovados os nomes de vice-presidentes, vice-primeiro-ministros, ministros, e dirigentes do banco central e órgãos reguladores. Todas as decisões importantes já foram definidas pela cúpula do partido e há pouca margem de manobra para os 2.987 delegados atuarem.

Apesar do intenso debate em torno de reformas políticas entre acadêmicos e intelectuais chineses, é pouco provável que haja mudanças significativas nesse terreno. Fu Ying, primeira porta-voz mulher do Congresso, deixou claro que qualquer alteração ocorrerá nos limites do modelo de partido único e dentro das diretrizes já fixadas pelo governo.

Segundo ela, "reforma política" significa "o aperfeiçoamento e o desenvolvimento do sistema socialista com características chinesas".

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