China cobra de dissidente dívida de US$ 2,4 milhões

Artista Ai Weiwei pode pegar até 7 anos de prisão se não quitar, em 15 dias, multas e impostos atrasados

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2011 | 03h01

Autoridades chinesas determinaram ontem que o artista plástico Ai Weiwei pague em 15 dias o equivalente a US$ 2,4 milhões em impostos e multas atrasados que teriam sido sonegados pela empresa Fake, de propriedade da mulher dele, Lu Qing.

Crítico aberto do governo chinês, Ai foi preso em 3 de abril e permaneceu detido durante 81 dias sem a apresentação de nenhuma acusação formal contra ele. Quatro dias depois de sua prisão, o governo chinês afirmou que o dissidente era investigado por "crimes econômicos", sem dar detalhes das suspeitas.

Para o artista, a denúncia de sonegação tem motivação política e seu objetivo é dar um verniz de legalidade a sua prisão - além de ser uma tentativa de intimidá-lo, na opinião de simpatizantes. "Quando eu estava detido, tudo o que eles falavam tinha relação com a suspeita de subversão do poder do Estado, em razão daquilo que eu escrevia no Twitter. Eles nunca falaram em sonegação ou crimes econômicos", afirmou Ai em entrevista por telefone ao Estado.

A ordem de cobrança do Escritório Local de Tributação de Pequim foi entregue ao artista na casa dele, localizada em um dos distritos artísticos da capital chinesa. Ai disse que não teve acesso aos documentos que deram origem à acusação de sonegação nem sabe a que impostos e taxas ela se refere. "Onde está a prova? Se o governo quer fazer uma acusação, ele tem de mostrar as evidências."

O dissidente afirmou que, se não pagar o que deve, estará sujeito a uma pena que pode variar entre 2 e 7 anos de prisão. "Eu ainda não sei o que fazer. Tenho de conversar com advogados e especialistas em tributação", disse.

Ai é o mais célebre dos críticos do regime presos desde meados de fevereiro, quando teve início a mais violenta onda de repressão na China em pelo menos uma década. As autoridades de Pequim reagiram a e-mails anônimos que convocavam manifestações semelhantes às que derrubaram regimes autoritários em países muçulmanos, em uma tentativa de criar uma versão local da primavera árabe.

Os protestos não chegaram a ocorrer, mas dezenas de ativistas, blogueiros, intelectuais e advogados que atuam na área de direitos humanos foram presos, alguns dos quais acusados de subversão.

Como condição para a libertação, Ai foi proibido de dar entrevistas, escrever na internet e sair de Pequim pelo período de um ano. O artista, porém, não abandonou totalmente a expressão de suas posições críticas, deu algumas entrevistas e publicou textos em jornais.

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