BMC Bioinformatics via The New York Times
BMC Bioinformatics via The New York Times

China coleta DNA para realizar controle de dissidentes muçulmanos

Cientistas chineses usam tecnologia ocidental para criar registro facial que aprimoraria capacidade de rastrear dissidentes

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 07h00

TUMXUK, CHINA - Numa cidade empoeirada da Província de Xinjian, no noroeste da China, as autoridades vêm testando as regras da ciência. Com mais de um milhão de uigures e outras etnias de grupos minoritários muçulmanos em prisões por toda a região, as autoridades em Tumxuk reuniram amostras de sangue de centenas de uigures como parte de uma coleta em massa de DNA. As dúvidas é se foram coletadas com o consentimento deles e como os dados serão utilizados.

A resposta, pelo menos em Tumxuk, é parcial: os cientistas chineses tentam encontrar uma maneira de usar amostras de DNA para criar uma imagem do rosto de uma pessoa. A tecnologia, que também vem sendo desenvolvida nos EUA e em outros países ocidentais, está nos seus estágios iniciais de desenvolvimento e poderá criar imagens grosseiras suficientes apenas para refinar uma busca de pessoas foragidas ou eliminar suspeitos. 

Mas diante da repressão em Xinjiang, especialistas em ética na ciência estão preocupados com a possibilidade de a China estar criando um instrumento que pode ser usado pelo Estado para justificar e intensificar a avaliação do perfil racial e outras medidas de discriminação contra os uigures.

No longo prazo, segundo os especialistas, pode até ser possível que o governo comunista transforme as imagens produzidas a partir de amostras de DNA em sistemas de vigilância e reconhecimento facial em massa, intensificando o controle da sociedade e aprimorando sua capacidade de rastrear dissidentes e manifestantes, como também criminosos.

Parte dessa pesquisa vem sendo realizada em laboratórios administrados pelo Ministério da Segurança Pública chinês e ao menos dois cientistas que trabalham para o ministério na área receberam financiamento de instituições respeitadas da Europa. 

Revistas científicas internacionais publicaram estudos e conclusões desses cientistas sem examinar a origem do DNA usado nos estudos ou verificar as questões éticas levantadas pela coleta das amostras.

No seu trabalho, os cientistas chineses afirmam ter respeitado as normas estabelecidas pelas associações internacionais, exigindo que os homens em Tumxuk fornecessem seu sangue voluntariamente. 

Mas em Xinjiang muitas pessoas não têm nenhuma opção. O governo coletou as amostras em meio a um programa de check-up de saúde obrigatório, segundo uigures que fugiram do país. E os presos em campos de “reeducação” – dois deles em Tumxuk – têm pouca escolha.

Um número cada vez maior de cientistas e ativistas de direitos humanos afirma que o governo chinês vem explorando a abertura da comunidade científica internacional para aprofundar a pesquisa sobre o genoma humano para fins dúbios. 

A China já vem explorando a tecnologia de reconhecimento facial para separar as pessoas por etnia. E vem pesquisando de que modo usar o DNA para saber se um indivíduo é uigur.

“O governo chinês vem criando tecnologias para perseguir pessoas”, afirmou Mark Munsterhjelm, professor assistente da Universidade de Windsor, em Ontário. No mundo da ciência, segundo o professor, “há uma cultura de complacência que agora deu lugar à cumplicidade”.

A polícia impediu dois jornalistas do New York Times de realizar entrevistas em Tumxuk. As perguntas feitas durante a entrevista irritaram Zhao Hai, vice-diretor do gabinete de assuntos externos de Tumxuk. 

Ele chamou um jornalista do Times de “sem-vergonha” por fazer uma pergunta ligando os check-ups às amostras de DNA. “O senhor acha que os EUA têm capacidade de realizar esses check-ups gratuitos?”, perguntou. “Somente o Partido Comunista pode fazer isto!” / NYT

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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