Reprodução/ Global Times
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China combate fake news sobre origem da pandemia com a sua própria mentira

Nova onda de desinformação amplificada por Pequim vem após a ordem de Joe Biden para que os EUA investiguem a origem da pandemia, incluindo a possibilidade de vazamento em laboratório em Wuhan

Austin Ramzy e Amy Chang Chien, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 05h00

Quando uma teoria da conspiração começou a circular na China sugerindo que o coronavírus escapou de um laboratório militar americano, ela foi, em grande parte, deixada de lado. Agora, porém, o Partido Comunista Chinês impulsiona a ideia firmemente para o grande público.

Nesta semana, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores fez declarações públicas repetitivamente para levantar ideias não comprovadas de que o coronavírus pode ter vazado primeiro de um centro de pesquisa em Fort Detrick, em Maryland. Uma publicação do Partido Comunista, o Global Times, iniciou uma petição online em julho para que o laboratório seja investigado, e disse que recolheu mais de 25 milhões de assinaturas até o momento.

Autoridades do governo e a mídia estatal chinesa promoveram uma canção de rap de um grupo patriótico de hip-hop que fazia a mesma afirmação, com a letra: "Quantas tramas saíram de seus laboratórios? Quantos cadáveres pendurados em uma etiqueta?".

Pequim está vendendo teorias infundadas de que os Estados Unidos podem ser a verdadeira fonte do coronavírus, enquanto reage contra os esforços para investigar as origens da pandemia na China. A campanha de desinformação começou no ano passado, mas os chineses intensificaram esse volume nas últimas semanas, refletindo sua ansiedade em possivelmente serem responsabilizados pela pandemia que matou milhões em todo o mundo.

Essas teorias, promovidas por funcionários, acadêmicos, veículos centrais de propaganda e nas redes sociais, ganharam ampla aceitação na China - o que aumenta o risco de mais confusão nas investigações sobre a origem do vírus e agrava as relações já desgastadas entre as duas principais potências do mundo em um momento em que a cooperação é extremamente necessária.

"Isso não apenas contribui para a deterioração ainda maior das relações EUA-China, mas também torna ainda menos provável que os dois países trabalhem juntos para enfrentar um desafio comum", disse Yanzhong Huang, diretor do Centro de Estudos de Saúde Global na Universidade Seton Hall. "Não vimos nenhuma cooperação bilateral sobre as vacinas, traçando a trajetória do vírus ou mutações, qualquer um desses tipos de coisas."

Entender a origem do vírus pode ajudar os cientistas a prevenir outra pandemia. Os virologistas ainda se inclinam em grande parte para a teoria de que o vírus passou de animais infectados para humanos fora de um laboratório, mas há pedidos para investigar também a possibilidade do vírus ter escapado de um laboratório em Wuhan, cidade que foi considerada a origem do surto.

A China rejeitou a hipótese do vazamento em seu laboratório, considerando-a como uma teoria da conspiração infundada. Pequim também criticou a resposta à pandemia dos Estados Unidos, destacando seu próprio sucesso em controlar um recente surto da variante Delta, com apenas um punhado de novos casos relatados nesta semana.

Em janeiro, Pequim acompanhou rigidamente os esforços da Organização Mundial da Saúde para investigar a origem do surto no país e rejeitou um pedido recente da agência para realizar uma segunda fase da investigação, que examinaria mais de perto a teoria do laboratório.

A intensificação da campanha de desinformação chinesa também vem antes da apresentação de resultados de uma investigação das agências de inteligência americanas, ordenada pelo presidente Joe Biden. As agências entregaram seu relatório sobre a origem da pandemia ao presidente na terça-feira, mas ainda não concluíram se o vírus surgiu naturalmente ou foi resultado de um vazamento acidental.

"O objetivo é realmente 'saturar as ondas de rádio' com tudo isso, o que a maioria dos chineses comuns não será capaz de ver por trás", disse Dali Yang, professor de ciência política da Universidade de Chicago. "Muito disso é antecipação e tentativa de rechaçar, preventivamente, esse potencial estudo americano feito pela comunidade de inteligência."

O governo chinês argumentou que Pequim fez sua parte na busca pela origem da pandemia, facilitando a visita de especialistas da OMS, e que os cientistas devem agora olhar para outros países, incluindo os Estados Unidos. Pequim acusa os que pressionam por uma investigação no laboratório de Wuhan de tentar minar a imagem do país, internamente e no exterior.

Wang Wenbin, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, usou coletivas de rotina nesta semana para divulgar especulações infundadas de que o vírus havia surgido nos Estados Unidos antes que os primeiros casos fossem relatados na China. Ele citou um surto de doença pulmonar em julho de 2019 em Wisconsin, que as autoridades de saúde americanas já conectaram ao uso de vaping, não à covid-19. Na quarta-feira, ele disse que a OMS deve investigar laboratórios em Fort Detrick e em outros lugares nos Estados Unidos que pesquisam coronavírus.

"Os Estados Unidos acusam a China de ser obscura na questão de rastrear as origens do vírus e acusam falsamente a China de usar propaganda falsa", disse Wang na terça-feira. "Mesmo assim, tem inventado desculpas, escondendo segredos com cuidado, evitando problemas de forma passiva e constantemente criando obstáculos."

Em um relatório divulgado neste mês, vários institutos de pesquisa de política chinesa acusaram os Estados Unidos de "manipular a opinião pública global praticando 'terrorismo de rastreamento de origem' do vírus". A China estava sendo transparente, disse o relatório, embora fossem as autoridades americanas que evitavam perguntas sobre Fort Detrick.

Um dos autores do relatório, Wang Wen, professor do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade Renmin, disse que sugestões infundadas de que o coronavírus foi criado em um laboratório eram uma forma de terrorismo porque causavam "horror desnecessário à sociedade".

Ele defendeu as alegações do relatório sobre o laboratório de Fort Detrick, dizendo, essencialmente, que foram os Estados Unidos que o iniciaram.

"Foram os políticos americanos que primeiro disseram isso e expandiram isso", disse Wang. "A China poderia ter cooperado originalmente, mas depois de enfrentar essas manchas, também deve levantar questões razoáveis sobre os Estados Unidos."

O relatório argumentou que a pandemia pode ter começado nos Estados Unidos, apontando o fechamento de um laboratório em Fort Detrick por questões de segurança em agosto de 2019 e as mortes em uma casa de repouso na Virgínia em julho de 2019 como suspeitas.

Não importa que tais afirmações tenham sido amplamente rejeitadas pelos cientistas. - "Não acho que haja qualquer validade para essas acusações", disse o Prof. Huang, da Universidade Seton Hall University -. Eles tiveram um papel de destaque na China. Este mês, a emissora estadual transmitiu vários segmentos sobre o que chamou de "história sombria" de Fort Detrick. O People’s Daily recentemente publicou uma série de 16 partes sobre as falhas americanas no controle do coronavírus, com perguntas repetidas sobre a conspiração de Fort Detrick.

"Por que os Estados Unidos não convidaram a OMS para visitar Fort Detrick?", escreveu o jornal em um comentário em 6 de agosto. "Sobre a questão da rastreabilidade, se você pode vir para a China, por que não pode ir para os Estados Unidos?".

Os esforços para enfatizar a má-fé americana às vezes saíram pela culatra. Depois que a mídia estatal chinesa citou um biólogo suíço que alertou à OMS que o esforço para examinar as origens da pandemia se tornaria uma ferramenta dos Estados Unidos, a embaixada da Suíça na China disse que o especialista parecia ser fictício.

"Se você existe, gostaríamos de conhecê-lo!", tuitou a embaixada da Suíça. "Mas é mais provável que esta seja uma notícia falsa, e pedimos à imprensa chinesa e aos internautas que retirem as postagens".

Ainda assim, as conspirações sobre o coronavírus foram amplamente recirculadas nas redes sociais.

No Weibo, uma plataforma de mídia social popular na China, hashtags como "os Estados Unidos devem responder" e "desmascarar a surpreendente história interna de Fort Detrick" foram vistos mais de 100 milhões de vezes.

Jenny Zhang, uma estudante de 21 anos da cidade de Nanjing, disse que assinou a petição do Global Times para uma investigação de Fort Detrick depois de ler vários relatos na mídia chinesa que sugeriam que o surto começou muito antes nos Estados Unidos.

"É sobre a segurança de toda a humanidade", disse Zhang. "Se descobrir que o vírus não se originou na China, acho que mudaria a opinião de outras pessoas sobre a China."

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