China condena à prisão sobrinho de ativista cego

Família de Chen Kegui diz que pena de 3 anos e 3 meses é retaliação à fuga em abril de seu tio, Cheng Guangcheng, hoje nos EUA

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h05

O sobrinho do ativista chinês cego Cheng Guangcheng foi condenado ontem a 3 anos e 3 meses de prisão sob acusação de lesão corporal dolosa, em um julgamento que a família viu como uma retaliação à fuga de seu tio, que se refugiou na Embaixada dos EUA em Pequim.

Chen Kegui feriu a facadas três homens que invadiram sua casa na madrugada de 27 de abril, quando veio à tona a informação de que seu tio havia escapado da prisão domiciliar ilegal em que era mantido havia 19 meses e estava sob proteção de diplomatas americanos.

Os três integravam um grupo de quase 30 homens que invadiram a casa sem mandado de busca e agrediram Chen Kegui, de 32 anos, e integrantes de sua família. Seu pai, Chen Guangfu, irmão de Cheng Guangcheng, sustenta que o filho agiu em legítima defesa e sua condenação teve motivação política.

O advogado constituído por Chen Guangfu foi impedido de atuar no caso e Chen Kegui foi representado por dois defensores nomeados pelo governo. Nenhum integrante da família pôde assistir ao julgamento. "Eu e minha mulher permanecemos o tempo todo do lado de fora da corte, vigiados por policiais à paisana", disse Chen Guangfu por telefone ao Estado.

"A decisão é injusta e não foi dada de acordo com a lei", ressaltou. Ele pretende discutir com advogados a possibilidade de recorrer, mas não sabe se será possível, considerando as dificuldades que enfrentou no julgamento concluído ontem.

Chen Kegui está preso desde o fim de abril e ninguém da família conseguiu visitá-lo desde então. Nos meses que antecederam o julgamento, Chen Guangcheng criticou a prisão do sobrinho em várias ocasiões e colocou em dúvida a possibilidade de ele receber uma sentença imparcial.

O ativista provocou uma crise diplomática entre a China e os EUA quando se refugiou na embaixada americana na véspera da chegada a Pequim da secretária de Estado Hillary Clinton. Depois de passar seis dias no local, ele foi transferido para um hospital da capital chinesa. No dia 19 de maio, ele, a mulher e os dois filhos embarcaram para Nova York, onde ele estuda direito.

Chen Guangcheng passou a vida em um vila rural de 450 habitantes na Província de Shandong, onde ele ganhou celebridade por defender mulheres vítimas de abusos cometidos em nome da política de filho único.

Advogado autodidata, ele iniciou em 2005 uma ação coletiva em nome de milhares de mulheres de sua região submetidas a esterilizações e abortos contra sua vontade. Pouco depois, foi preso e condenado a 4 anos e 3 meses de prisão sob acusação de distúrbio ao trânsito, em um julgamento que entidades de defesa de direitos humanos afirmaram ter sido manipulado.

Depois de cumprir a pena, Chen Guangcheng continuou preso, mesmo sem nenhuma sentença condenatória. O ativista foi detido na casa onde vivia com a família e a mãe, em sua vila rural. Isolado, era vigiado dia e noite. Conseguiu escapar em 26 de abril, aproveitando segundos de ausência dos capangas que cercavam sua residência. Nos dias que antecederam a fuga, Chen Guangcheng permaneceu quase todo o tempo na cama, para dar a impressão de que estava doente e para que os vigias não notassem sua ausência de maneira imediata.

A informação de que estava na embaixada dos EUA só foi divulgada no dia seguinte. Em reação, os responsáveis pela vigilância invadiram a casa de seu sobrinho e de Chen Guangfu, que foi detido por uma noite e torturado.

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