AP Photo/Mark Schiefelbein
AP Photo/Mark Schiefelbein

China condena canadense Michael Spavor a 11 anos de prisão por espionagem

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, classificou a condenação como 'absolutamente inaceitável e injusta'

Beiyi Seow/AFP, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 09h51

O governo do Canadá considerou "inaceitável e injusta" a condenação a 11 anos de prisão por espionagem do consultor canadense Michael Spavor na China, o que agrava ainda mais as relações entre os dois países.

Spavor foi detido em dezembro de 2018, um caso que o Canadá considera como uma represália pela prisão dias antes em Vancouver de Meng Wanzhou, a diretora financeira da gigante chinesa das telecomunicações Huawei, a pedido dos Estados Unidos.

Michael Spavor "foi declarado culpado de espionagem e de roubar segredos de Estado", anunciou nesta quarta-feira o tribunal de Dandong (noroeste), na fronteira norte-coreana, onde o canadense foi julgado em março de 2021.

"Foi condenado a 11 anos de prisão e ao confisco de seus bens pessoais até a quantia de 50.000 yuans (7.700 dólares, 6.600 euros) e à expulsão", completou.

Não foi divulgado quando acontecerá a expulsão de Spavor do país, mas provavelmente acontecerá após o cumprimento da pena.

O julgamento aconteceu a portas fechadas, o que é habitual na China em casos de espionagem.

Pouco depois do anúncio do tribunal, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, criticou a condenação, que chamou de "absolutamente inaceitável e injusta".

"O veredito de hoje contra Spavor acontece após mais de dois anos e meio de detenção arbitrária, de falta de transparência no processo judicial e de um julgamento que não cumpriu nem sequer com as normas mínimas exigidas pelo direito internacional", denunciou Trudeau em um comunicado. 

A Comissão Europeia considerou que o canadense não teve direito a um julgamento justo.

Diante do centro de detenção de Dandong, o embaixador do Canadá na China, Dominic Barton, citou a "possibilidade de apresentar recurso de apelação".

Outro canadense, o ex-diplomata Michael Kovarig, foi detido ao mesmo tempo que Spavor por acusações similares de espionagem.

Kovarig já foi julgado e aguarda o veredito.

 "Motivos políticos" 

Coincidência ou tentativa de pressionar Ottawa? A condenação de Spavor foi anunciada dias antes do comparecimento de Meng Wanzhou, em 20 de agosto, a um tribunal canadense para a série final de audiências dedicada a sua potencial extradição aos Estados Unidos.

A detenção de Meng Wanzhou, executiva da Huawei, aconteceu a pedido da justiça americana, que suspeita que ela cometeu fraude bancária e pede sua extradição do Canadá.

Desde então, a China denuncia uma manobra "política" de Washington e exige de Ottawa a "libertação imediata" de Wanzhou.

Pequim rejeita a acusação de estar usando os dois cidadãos canadenses como moeda de troca.

O governo chinês denuncia desde o início as "motivações políticas" do governo dos Estados Unidos, acusado de querer derrubar uma empresa de tecnologia rival.

A Huawei é líder mundial em equipamentos e redes 5G, sem uma empresa similar nos Estados Unidos.

Uma decisão sobre os processos deve demorar meses. Em caso de recurso, o procedimento pode durar vários anos.

Michael Spavor, especialista em Coreia do Norte, se reuniu diversas vezes com o dirigente Kim Jong-un e organizou, por exemplo, as visitas a Pyongyang do ex-jogador de basquete americano Dennis Rodman.

Graças a seus contatos com a cúpula do poder norte-coreano, o canadense atuava como intermediário entre os interlocutores estrangeiros e as autoridades deste país isolado no cenário internacional.

Como demonstração da importância dos casos Spavor e Kovrig, vários países aliados do Canadá expressaram apoio e o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em março que acompanhava com "preocupação" o destino dos dois canadenses.

A decisão contra Spavor foi anunciada um dia após a confirmação pelos tribunais chineses da sentença de morte de Robert Lloyd Schellenberg, outro canadense, condenado por tráfico de drogas

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.