China confirma 16 mortes em protestos no Tibete

Oposição fala em mais de 80 vítimas; governador promete "complacência" para manifestantes que se renderem

Agências internacionais,

17 de março de 2008 | 07h48

O governador da província chinesa do Tibete, Champa Phuntsok, afirmou nesta segunda-feira, 17, que 16 pessoas foram mortas e dezenas feridas nos protestos que atingiram a capital, Lhasa, na última semana, embora o governo no exílio afirme que pelo menos 80 podem ter morrido durante as manifestações reprimidas. Ele ainda prometeu complacência com os opositores enquanto as tropas do Exército tentam evitar que os atos se espalhem por outras regiões da China.  Veja também:Entenda os protestos no TibeteChina bloqueia acesso a YouTube e Guardian China procura agitadores 'casa por casa' Dalai Lama denuncia 'genocídio cultural'  De seu exílio em Dharamsala, na Índia, o dalai-lama pediu uma intervenção internacional para investigar a situação no Tibete. Segundo ele, a herança cultural de seu povo está sob ameaça de extinção sob o domínio chinês. Apesar das críticas, o dalai-lama disse que a China "merece" ser sede da Olimpíada de agosto e se declarou contra um boicote internacional ao evento. Mas destacou que o país precisa reparar sua atuação na área dos direitos humanos para ser um "bom anfitrião". Os protestos ocorrem a menos de cinco meses da Olimpíada, o maior evento internacional da história da China. Entidades que defendem diferentes causas - do fim da pena de morte ao combate do genocídio em Darfur, no Sudão - vêem uma oportunidade no momento atual para pressionar o governo de Pequim a mudar sua posição em relação à questão de direitos humanos. Se depender deles, a pressão vai aumentar à medida que os Jogos se aproximem. Quase metade dos 5,4 milhões de tibetanos está espalhada nas províncias de Qinghai, Gansu, Sichuan e Yunnan, que ficam próximas ou fazem parte do Platô Tibetano - o "teto do mundo", com altitude média de 5 mil metros.  A unidade territorial está no topo das prioridades do governo chinês, ao lado da estabilidade política e do crescimento econômico. A China se esforça para transmitir uma imagem de harmonia entre a maioria chinesa han e as 55 etnias minoritárias que habitam o país e representam 8,4% da população - grupos com religião, língua e cultura próprias, como os tibetanos. Essas "minorias étnicas" ocupam 60% do território chinês, em áreas estratégicas de fronteira e ricas em recursos naturais.  A maior província da China, Xinjiang, é dominada pela minoria muçulmana e também é explosiva pela atuação de um movimento separatista que defende a criação do Estado do Turcomenistão do Leste. Depois de Xinjiang, a maior província é o Tibete.  "Nenhum país permitiria que esses criminosos escapassem da Justiça e a China não é exceção", disse o governador, referindo-se aos manifestantes que incendiaram e destruíram lojas e incendiaram veículos. "Se essas pessoas se renderem, elas serão tratadas com complacência com respaldo da lei". "Se essas pessoas derem mais informações sobre o envolvimento de outros nesses crimes, serão tratados com mais complacência", afirmou Phuntsok. Segundo a BBC, o governador negou ainda que tropas do país tenham usado de força letal para controlar os protestos que eclodiram na sexta-feira em Lhasa. "Eu posso dizer como oficial encarregado que armas não foram disparadas". Ele ressaltou que as tropas leais ao governo chinês não fizeram uso de "armas mortais" e defendeu que a capital, Lhasa, estaria retornando à normalidade à medida em que se aproxima o fim do prazo para os revoltosos se entregarem. O ultimato do governo chinês vence nesta segunda-feira, à meia-noite, horário local (13h de Brasília).  Outras províncias As declarações oficiais são feitas em meio a rumores de que os protestos estão se espalhando para outras províncias. Testemunhas disseram que manifestantes pró-Tibete entraram em choque com a polícia no domingo na cidade de Aba, província de Sichuan. A polícia teria aberto fogo contra cerca de mil monges que participavam de um protesto. Segundo Kate Saunders, do grupo International Campaign for Tibete, fontes locais de confiança da ONG estimam em sete o número de mortos.  Também teriam ocorrido protestos na cidade de Manchu, província de Gansu, onde centenas marcharam em frente a prédios do governo e atearam fogo em lojas e escritórios de companhias chinesas, a ONG Free Tibet Campaign disse a agências internacionais.  A imprensa estatal diz que a situação em Lhasa já está normalizada e as escolas funcionam normalmente nesta segunda-feira, mas um morador local contatado pelo Serviço Mundial da BBC disse que, pela manhã, o comércio continuava fechado e havia forte presença policial nas ruas. Não há mantimentos suficientes em Lhasa e o preço dos alimentos dobrou desde sexta, informou o jornal South China Morning Post de Hong Kong.  "Se a situação não melhorar, vamos ficar sem arroz em poucos dias", disse Liu Xiaoyu, proprietário de um restaurante na capital tibetana ao jornal.  Confirmar as declarações das ONG e do governo é difícil, pois o partido comunista controla fortemente o acesso ao Tibete e censura o trabalho da imprensa. Uma equipe de TV de Hong Kong foi forçada a sair de Lhasa depois de transmitir imagens dos protestos e o governo não está emitindo vistos de acesso a jornalistas internacionais que queiram visitar a área. (Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo)

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