Teh Eng koon/AFP
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China dá sinal sobre sucessor de Hu

O vice-presidente da China, Xi Jinping, foi eleito ontem para o segundo posto mais importante do organismo que controla o Exército de Libertação Popular, o que reforçou ainda mais suas credenciais como provável sucessor de Hu Jintao no comando do país, em 2013.

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

O anúncio foi realizado no fim de quatro dias de reunião dos 365 integrantes do Comitê Central do Partido Comunista. Na reunião também foi discutido o Plano Quinquenal que traçará as linhas do desenvolvimento do país no período 2011-2015. A trajetória de Xi repete a do próprio Hu, que foi indicado para a vice-presidência da Comissão Central Militar em 1999, anos antes de assumir o comando do partido, no fim de 2002, e a presidência da China, em março de 2003 - Hu só passou a chefiar a Comissão Militar em 2004.

Se tudo correr como planejado pelos líderes comunistas, Xi, de 57 anos, será indicado para a secretaria-geral do Partido Comunista em 2012 e se tornará presidente da China no ano seguinte. O processo de sucessão teve início em 2007, quando Xi passou a integrar o Comitê Permanente do Politburo, que reúne os nove homens mais poderosos do país, entre os quais Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao. No ano seguinte, ele foi apontado vice-presidente da China pelo Congresso Nacional do Povo.

A ascensão de Xi foi considerada uma derrota do presidente Hu Jintao, que preferia ser sucedido por seu aliado Li Keqiang, ex-governador da Província de Liaoning. Li também passou a integrar o Comitê Permanente do Politburo em 2007, mas como provável futuro premiê do país, no lugar de Wen Jiabao.

Xi Jinping e Li Keqiang pertencem à chamada "quinta geração" de líderes chineses. Chegaram à vida adulta no turbulento período da Revolução Cultural (1966-1976). Se nada inesperado acontecer, a passagem do poder de Hu e Wen para Xi e Li será a segunda sucessão pacífica da China comunista. A primeira marcou a chegada da "quarta geração" ao comando do país, quando o atual presidente sucedeu a Jiang Zemin e o primeiro-ministro tomou o lugar de Zhu Rongji. É pouco provável que a chegada de Xi Jinping à chefia do país traga mudanças significativas de estratégias políticas ou econômicas. O poder na China não é mais exercido de maneira personalista e os ocupantes de cargos de comando seguem princípios aprovados de maneira consensual pelos órgãos de cúpula do partido.

Pode haver mudanças de tom e de ênfase, mas a linha geral é de continuidade do processo de reforma e abertura econômica. No campo político, a prioridade é a manutenção do partido no poder, ainda que haja discussões sobre reformas políticas e a construção de um sistema legal que regule a atuação do Estado.

O comunicado divulgado no fim da reunião do Comitê Central ontem ressaltou que o Partido Comunista é a "garantia fundamental" para que a China atinja os objetivos sociais e econômicos que estarão no Plano Quinquenal para o período 2011-2015.

Antes de chegar à cúpula do partido, Xi comandou províncias do sudeste do país célebres pelo empreendedorismo e a força do setor privado, como Zhejiang e Fujian. Em março de 2007, ele foi transferido para a chefia de Xangai, o centro financeiro da China, em substituição a Cheng Liangyu, afastado no ano anterior por envolvimento em um escândalo de corrupção e condenado a 18 anos de prisão.

A primeira missão de Xi como integrante do Comitê Permanente do Politburo foi comandar a etapa final das preparações para a Olimpíada de Pequim, em agosto de 2008, cargo que serviu como uma plataforma de relações públicas dentro e fora da China.

Apesar de não ser identificado com o grupo de Hu Jintao, Xi tem dado declarações elogiosas ao princípio do "desenvolvimento científico" proposto pelo atual presidente, segundo o qual o crescimento deve levar em conta questões ambientais e sociais.

O provável futuro presidente também parece compartilhar a intolerância dos líderes atuais em relação ao que veem como interferência indevida do exterior em assuntos internos do país, especialmente na área de direitos humanos.

PARA ENTENDER

O processo sucessório da China é decidido pelo Congresso do Partido Comunista, que se reúne a cada cinco anos. No último, em 2007, Xi Jinping foi consagrado como o nome mais forte para suceder a Hu Jintao na presidência. O próximo Congresso será em 2012, quando Xi Jinping deverá assumir o cargo de secretário-geral do PC, que tem mais peso que o de presidente. A transição do poder só estará completa em 2013, quando Hu deixar o comando. Apesar de ser o nome mais forte, nada impede que o Congresso tome uma decisão distinta da esperada, caso algo não siga o script desejado pelo partido.

Herdeiro de um reformista

PERFIL

Xi Jinping,Vice-presidente da China

Xi Jinping tinha 15 anos quando foi mandado à zona rural para ser "reeducado" pelos camponeses durante a Revolução Cultural (1966-1976), período de radicalização da política comandada por Mao Tsé-tung. Ele deixou os estudos e passou seis anos trabalhando na terra.

Pai do provável futuro presidente da China, o herói revolucionário Xi Zhongxun, era um reformista radical, que defendia mudanças não só na economia, mas em toda a estrutura administrativa. A trajetória de seu pai faz com que alguns analistas acreditem que Xi Jinping promoverá reformas políticas quando assumir o comando do Partido e da China, mas não há nenhum indício concreto de que isso poderá ocorrer.

Muitos consideram Xi Jinping um pragmático que conhece as engrenagens do partido e as táticas de sobrevivência dentro da organização.

Antes de ganhar projeção internacional em 2007 como o provável sucessor do presidente Hu Jintao, Xi Jinping era mais conhecido na China como o marido de Peng Liyuan, de 47 anos, uma popular cantora de músicas étnicas que desde os 18 anos integra o Exército de Libertação Popular, no qual tem a patente de major-general.

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