China demonstra insatisfação com vizinho

Governo de Pequim é o maior colaborador de Pyongyang e enfrenta dificuldades para suspender sua ajuda

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2013 | 02h00

Maior pilar de sustentação do regime totalitário da Coreia do Norte, a China dá sinais de descontentamento crescente em relação a seu histórico e problemático aliado, mas enfrenta dificuldades internas para abandonar o regime comandado pela terceira geração da dinastia Kim. O caos decorrente do eventual colapso do governo continua a ser mais temido do que o fortalecimento nuclear de Pyongyang, dizem analistas.

A realização do terceiro teste nuclear norte-coreano deverá intensificar o debate chinês que opõe os defensores da política atual e os revisionistas, observa o professor Jin Canrong, da Escola de Estudos Internacionais da Universidade do Povo, ele próprio defensor de uma mudança de rumo.

"A China tem objetivos contraditórios em relação à Coreia do Norte: impedir a proliferação de armas nucleares e, ao mesmo tempo, evitar o colapso do governo", ressalta. Apesar de estar entre os revisionistas, Canrong reconhece que a defesa do status quo tem mais força. "O caos na península é o que mais preocupa a China", disse ao Estado. Shi Yinhong, também professor da Universidade do Povo, observa que Pequim "não pode e não vai" perder a paciência com a Coreia do Norte, porque a estabilidade interna do país vizinho está "intimamente" relacionada à da China.

Para analistas chineses, o teste é uma demonstração de que Pyongyang não tem intenção de abandonar suas ambições militares. "A desnuclearização da Península Coreana buscada pela comunidade internacional se tornou impossível. A Coreia do Norte demonstrou que está decidida a ignorar todas as objeções", opinou Cai Jian, da Universidade Fudan, de Xangai.

Jin Canrong acredita que a China tem mais influência que qualquer outro país sobre a Coreia do Norte. Em sua opinião, o governo de Pequim deveria abandonar a ajuda que provê a Pyongyang e estabelecer uma relação "normal" com o país vizinho, que teria deixado de ter a importância estratégica que exibiu no passado.

A China é o principal parceiro comercial, o maior investidor externo e a grande fonte de petróleo, alimentos e bens de consumo da Coreia do Norte. Além disso, os dois países mantêm laços políticos forjados a sangue durante a Guerra da Coreia (1950-1953), na qual quase 1 milhão de soldados chineses morreram lutando ao lado do Norte contra a Coreia do Sul e os EUA.

Yan Xuetong, professor da Universidade Tsinghua e um dos mais influentes pensadores da política externa chinesa, acredita que Pequim pode fazer pouco para influenciar a Coreia do Norte. Segundo ele, Washington detém as armas mais eficazes para convencer Pyongyang a abandonar seu programa nuclear . "O principal objetivo da Coreia do Norte é pressionar os EUA a normalizar as relações com o país. Infelizmente, os EUA não concordam com isso." / C.T.

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