Tyrone Siu/REUTERS
Tyrone Siu/REUTERS

China dificulta venda de equipamentos de proteção a manifestantes em Hong Kong

Importadores e donos de comércio relatam que serviços de entrega e empresas não têm distribuído máscaras, capacetes, óculos e guarda-chuvas no território

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 07h00

HONG KONG – Máscaras de gás, capacetes, guarda-chuvas, óculos de proteção: para qualquer um em Hong Kong, essa é uma lista de equipamentos de proteção essenciais, necessários para quem quiser compor ou documentar os protestos que têm imergido o território semi-autônomo chinês em uma crise política. Mas para autoridades que buscam abafar o movimento, tais itens são “ferramentas para atacar pessoas”.

Foi o que disse a polícia de Hong Kong quando agentes visitaram uma loja de equipamento industrial no distrito de Kowloon há duas semanas, segundo o gerente. O homem, que se identificou somente como Peter, disse que aproximadamente 20 oficiais vieram alertá-lo que “neste momento sensível, você sabe como fazer. Você tem que ser cuidadoso”. A mensagem, disse ele, foi clara: pare de vender equipamentos para protestantes.

Peter não está fazendo nada ilegal – máscaras de gás e capacetes não são proibidos ou bens controlados – e em uma resposta por e-mail ao jornal The Washington Post, a polícia não dirigiu perguntas sobre esforços para esmagar a oferta de equipamentos de proteção.

Mas com o aumento da intensidade dos protestos, junto com os alertas do governo chinês de terríveis consequências, as autoridades estão reprimindo a venda e importação de itens vistos como ferramentas de resistência. Em resposta, vendedores e protestantes anti-governo estão encontrando meios para contornar a falta de equipamentos e manter a reposição nas lojas.

“Hoje em dia, nós trabalhamos como contrabandistas”, diz Peter. “Temos que nos esconder do governo”. Máscaras de gás se tornaram itens cobiçados no polo financeiro asiático, onde protestantes entraram em confrontos violentos com a polícia.

Policiais atiraram mais de 1.800 cápsulas de gás lacrimogêneo desde o começo de junho, quando atos começaram em resposta a um projeto de lei de extradição, desde então engavetado mas não arquivado por completo, que permitiria que suspeitos fossem julgados na China.

“Não há estoques no mercado” de máscaras de gás, disse um comerciante de 43 anos que pediu para ser identificado como Ho.

Quando ele pressionou a distribuidora oficial da fabricante 3M em Hong Kong para um restoque, disse que “eles me deram somente 30” máscaras ao invés da leva de 100. Visitas do The Post a demais lojas renderam histórias parecidas.

A polícia não é a única fonte de pressão. Segundo Peter, o governo chinês tem pressionado empresas no continente a não enviar bens para Hong Kong. O comerciante encomenda utensílios de 10 endereços diferentes no Japão e em Taiwan.

Ele afirma que vários dos pedidos são confiscados pelos agentes alfandegários chineses na fronteira. O órgão não respondeu uma tentativa de contato.

Alguns compradores apelam para comércios online. Um estudante que pediu para ser identificado como Carl, 24 anos, encomendou da China dois macacões a prova de facadas pelo site Taobao, em julho. O primeiro chegou. O segundo, encomendado mais tarde no mesmo mês, foi cancelado após um serviço de entregas rejeitar o pacote.

Outro manifestante, de 29 anos, recentemente tentou encomendar cinco máscaras pelo Taobao. Segundo ele, a loja rejeitou o pedido porque os serviços de entrega indicavam que não era possível “enviar máscaras, luvas, óculos ou guarda-chuvas” para Hong Kong.

O Post contatou cinco vendedores online na China que estão no Taobao, e todos afirmaram que depósitos no país que enviam encomendas a Hong Kong estavam se recusando a aceitar entregas de equipamentos relacionados a protestos para o território.

As restrições chinesas em equipamentos de proteção poderiam tecnicamente violar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), afirma um professor e especialista em leis de comércio internacional da escola de direito da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Mas, dentro da ata de segurança nacional nas regras da OMC, ele afirma que “é provável que a China iria chamar isso de uma medida essencial de segurança tomada em um período de emergência e predominante em qualquer disputa”.

As táticas indicam que Pequim enxerga a crise em Hong Kong como “uma situação cada vez mais terrível”, afirma Adam Ni, um pesquisador de China na Universidade de Macquarie em Sidney, Austrália. Restringir a venda de equipamentos de proteção faz parte de uma “estratégia multifacetada” da China para “colocar mais pressão nos protestantes”. / W. POST

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