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China diminui seu apetite pela América Latina

Mudança em estratégia chinesa, atrasos em obras, descumprimento de prazos e corrupção explicam redução de investimentos chineses na região

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2019 | 10h48
Atualizado 10 de junho de 2019 | 16h27

Em maio de 2015, a então presidente do Brasil, Dilma Rousseff, recebia no Palácio do Planalto o primeiro-ministro da China, Li Keqiang. Após os ritos oficiais, os dois assinaram uma série de parcerias. A principal delas: um investimento de US$ 50 bilhões para a criação da ferrovia bioceânica, que atravessaria a América do Sul, entre Peru e Brasil, e conectaria os oceanos Atlântico e Pacífico.

Quatro anos depois, Keqiang segue no cargo, Dilma sofreu impeachment e nada saiu do papel. A bioceânica é um retrato da situação dos investimentos da China na América Latina nos últimos dois anos: planos grandiloquentes, altos investimentos, mas realizações tímidas.

A China segue com interesse pela América Latina, mas mudanças na estratégia de investimento chinesas, atrasos e descumprimento de prazos, corrupção e maior atenção a projetos na Ásia e na Europa, como o da nova rota da seda, conhecido como “One Belt One Road”, fizeram o investimento chinês diminuir na região nos últimos dois anos. 

Fusões, aquisições e investimentos privados caíram de um nível recorde de US$ 17,5 bilhões, em 2017, para apenas US$ 7,6 bilhões, em 2018, segundo o Global Development Policy Center. E os bancos chineses – Banco de Desenvolvimento da China e Banco de Exportação e Importação da China – emitiram níveis de financiamento comparativamente baixos para os governos latino-americanos nos últimos dois anos.

Os investimentos da China caíram em quase todas as regiões nos últimos dois anos, em razão de medidas de controle de saída de capitais impostas por Pequim em 2017, ano em que os investimentos do país no exterior bateram recorde. Nos EUA, segundo o Baker McKenzie, a queda foi de 75% no ano passado, para apenas US$ 5 bilhões. Na Europa, a redução foi de 40%, para US$ 22,5 bilhões. Depois de registrar volume recorde em 2016, o total dos investimentos chineses no exterior caiu de forma abrupta em 2017 e cresceu só 4,2% em 2018. A queda foi generalizada, mas os investimentos nos projetos da nova Rota da Seda foram os que menos sofreram. A China registrou a maior saída de capitais da história entre 2015 e 2016, quando suas reservas internacionais caíram em quase US$ 1 trilhão. Em 2017, o país apertou o cerco à retirada de recursos do país, o que atingiu os investimentos no exterior como um todo.

“A América Latina é vista como uma terra cheia de vitalidade e esperança na política oficial da China, mas os investidores chineses há muitos anos consideram a distância e a cultura latino-americanas empecilhos para negociar”, afirmou ao Estado Zuo Pin, da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai. “Os ambientes normativos, os processos de licitação pouco claros e a complexidade logística das empresas chinesas de acompanhar obras e execuções a mais de 15 mil quilômetros de distância são alguns dos principais problemas.”

A Bolívia é um exemplo das apostas de alto risco. Em 2016, o presidente boliviano, Evo Morales, recebeu o chanceler da China, Wang Yi, para anunciar um crédito chinês de US$ 4,85 bilhões para que o país aplicasse em nove projetos de infraestrutura. Apenas um saiu do papel, a rodovia El Sillar, que liga Cochabamba a Santa Cruz.

No caso da Venezuela, a instabilidade política se tornou uma fonte regular de estresse para políticos e investidores chineses e para bancos e empresas que operam no país. Apesar do apoio político ao chavismo, em 2018, o governo chinês interrompeu a concessão de empréstimos à Venezuela, um sinal da impaciência de Pequim com Nicolás Maduro. A torneira financeira foi reaberta em 2019, mas em níveis menores do que em anos anteriores.

Os casos de Venezuela e Bolívia são os mais evidentes, mas alegações de corrupção também afetam outros projetos chineses na região, incluindo uma concessão ferroviária de Querétaro, no México, e duas hidrelétricas na Argentina. Desde 2002, as estatais da China e os bancos manifestaram interesse em cerca de 150 projetos de infraestrutura de transporte na América Latina, mas apenas a metade entrou em fase de construção. 

Além disso, há também a concorrência com os ambiciosos projetos da Nova Rota da Seda, investimentos em infraestrutura na Europa, Ásia e África, que podem chegar a US$ 1,9 trilhão nos próximos anos. “A China é retardatária na área de investimentos internacionais e é forçada a alocar capital para países e regiões com maiores riscos”, diz Wang Yongzhong, economista do Instituto de Economia e Política da China. “Mas há um limite para o grau de risco admitido, e dez anos de investimento com pouco retorno é um mau negócio para qualquer um.”

Por questões políticas, países como Equador e Argentina reduziram em quase 50% seus pedidos de financiamento para a China, para não aumentar o nível de dívida soberana comprometida com os chineses. Muitos países estão sentindo uma pressão considerável de Washington para evitar grandes acordos com a China, caso do México e de países do Caribe, e até mesmo do Brasil.

“Embora as reservas internacionais da China tenham crescido, os limites prováveis do crédito disponível obrigarão os bancos e estatais chineses a escolher projetos no exterior com mais cuidado”, escreveu Margaret Myers, diretora do centro de estudos Inter-American Dialogue, na revista Americas Quarterly. “Empresas e bancos chineses tendem a buscar oportunidades mais próximas de casa, onde os custos são mais baixos e as redes, bem estabelecidas.”

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