China diz que tremor matou 5.335 estudantes

Números oficiais do governo sobre terremoto de 2008 são contestados

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

08 de maio de 2009 | 00h00

O governo chinês anunciou ontem que 5.335 crianças e adolescentes morreram soterrados nos desabamentos de escolas provocados pelo terremoto que atingiu a província central de Sichuan em 12 de maio. Essa foi a primeira contabilidade oficial em relação a um dos mais sensíveis temas relacionados ao tremor que completará um ano na terça-feira: o das milhares de escolas que desmoronaram, enquanto muitos dos prédios ao redor se mantiveram em pé, o que levantou a suspeita de que tenham sido construídas com material de baixa qualidade.Apesar da pressão dos pais, o governo não havia até ontem apresentado um relato detalhado das mortes dos estudantes. E, para alguns, os dados divulgados não representam o número real de mortos.O artista plástico Ai Wei Wei realiza desde dezembro uma campanha na internet pela identificação dos estudantes mortos. Em sua avaliação, o número real é de pelo menos 7 mil crianças e adolescentes. O terremoto de 8 graus na escala Richter ocorreu no início da tarde de 12 de maio, quando as escolas estavam cheias de estudantes. O tremor foi o mais intenso da China em 32 anos e deixou um total de 80 mil mortos.Em novembro, a imprensa oficial publicou que o desabamento de escolas havia deixado 19.065 estudantes mortos, o que representaria cerca de um quarto do total de vítimas. A cifra chegou a ser publicada pelo China Daily, jornal editado pelo Conselho de Estado, mas foi desmentida pelo departamento de propaganda de Sichuan.De acordo com as autoridades da província, houve um problema na tradução para o inglês da entrevista coletiva dada na época pelo vice-governador de Sichuan, Wei Hong. O número de 19.065 seria relativo ao total de mortos identificados até então, não ao total de estudantes.Em razão da política de controle de natalidade, muitos dos que morreram soterrados nas escolas eram filhos únicos, o que aumentou ainda mais a carga dramática das perdas.O assunto desapareceu da imprensa oficial chinesa nos últimos meses e tornou-se um dos mais sensíveis para as autoridades de Pequim, pelo potencial que tem de alimentar insatisfação em relação às autoridades. DISSIDENTE Ai Wei Wei é considerado o pai da arte contemporânea na China e trabalhou na concepção do Ninho de Pássaros, o estádio da Olimpíada de Pequim. Totalmente ignorado pela imprensa oficial, ele mantém um blog extremamente popular, no qual manifesta posições críticas ao governo chinês e defende maior liberdade e democracia.

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