''China e EUA terão cada vez mais atritos''

Após a crise de 2008, China e EUA terão cada vez mais atritos, diz colunista; Brasil pode ser ponte entre as potências

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Esqueça a ascensão pacífica da China e o gradual e organizado declínio do império americano. Pós-crise econômica de 2008, o mundo está entrando em uma era de atritos crescentes entre Washington e Pequim, alerta Gideon Rachman, principal colunista de política externa do jornal britânico Financial Times e autor do livro Zero Sum Game - Power and Politics after the Crash, recém-lançado na Grã-Bretanha.

"Será um caminho acidentado, com muito mais competição entre China e EUA por influência e poder estratégico, que pode ser exacerbada pelo declínio econômico na Europa e nos EUA", diz Rachman. No livro, que será publicado no Brasil pela Campus Elsevier, em 2011, ele descreve a reorganização do poder mundial após a Grande Recessão de 2008.

Segundo Rachman, o mundo está sendo tomado por uma lógica de soma zero - ninguém colabora porque há a percepção de que o ganho de um país é a perda de outro, seja em guerras cambiais, aquecimento global ou não proliferação nuclear.

E qual é o papel do Brasil nesse novo mundo? Segundo ele, o País pode ser uma importante ponte entre as potências, já que tem um pé em cada barco, uma identidade de democracia ocidental, mas também é parte dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China).

"O fato de o Brasil não seguir de forma previsível tudo o que os EUA querem permite que o País aja como árbitro em uma série de questões internacionais." A seguir, trechos da entrevista que Rachman concedeu ao Estado, por telefone.

Larry Summers, assessor econômico do presidente Barack Obama, já questionou por quanto tempo os EUA, sendo o maior devedor do mundo, continuarão sendo a maior potência mundial. É possível os EUA manterem seu poder global?

Em algum momento se tornará impossível, mas esse momento não chegou ainda. Os níveis de endividamento dos EUA, de cerca de 100% do PIB, ainda são razoáveis. Mas não há habilidade política para controlar o déficit, então a dívida, em breve, chegará a níveis que começam a afetar a capacidade dos EUA de serem uma superpotência.

É inevitável que esse declínio econômico dos EUA resulte em perda de influência no mundo?

O pico do poder dos EUA, olhando para o tamanho da economia em relação ao resto do mundo, foi em 1945. E vem declinando desde então. Mas esse declínio foi disfarçado pelo fim da Guerra Fria, em um período de 20 anos parecia que os EUA estavam dominando novamente, porque a União Soviética tinha entrado em colapso. Então, os americanos deixaram de ver algumas tendências inexoráveis, como a ascensão do resto do mundo. Aí veio a crise econômica, que pôs tudo em foco.

A China preencherá o vácuo de poder deixado pelos EUA?

Não acho que será uma troca abrupta, que de repente teremos uma superpotência, que será a China. Pode ser uma mudança ao longo de 20 anos. Hoje, os EUA são a potência militar em todo o mundo. À medida que a China fica mais rica, fortalece suas Forças Armadas, as economias da Ásia ficam mais integradas e os EUA começam a ter dificuldade de financiar sua presença militar no mundo.

O sr. fala que estamos vivendo uma era da ansiedade. Por que?

Vemos um declínio do poder ocidental. No entanto, o que mais me preocupa é que a ascensão da China será relativamente pacífica, mas será um caminho acidentado, com muito mais competição entre China e EUA por influência e poder, que será exacerbada pelo declínio econômico da Europa e dos EUA. Há razões para grande ansiedade.

O sr. diz que alguns países, entre eles o Brasil, agora estão mais dispostos a se alinhar com nações autoritárias como China, Rússia, Irã ou Venezuela, do que com EUA ou Europa. Por que?

Os americanos supunham, de forma ingênua, que todos os países democráticos concordariam nas grandes questões. E eles descobriram que países como Brasil, Indonésia e África do Sul pensam por eles mesmos. A posição do Brasil sobre o Irã é o caso mais óbvio. Os americanos também ficam frustrados porque o Brasil não é mais duro com a Venezuela. Mudança climática é outra questão em que a identidade do Brasil como potência emergente pesa mais do que como democracia.

Qual é o papel do Brasil nesta "era de ansiedade"?

O Brasil pode ser uma importante ponte entre as potências, é cada vez mais respeitado por seu poder econômico e tem um pé em cada barco, tem uma identidade de democracia ocidental, mas também é parte dos Brics (junto com Rússia, Índia e China). O fato de o Brasil não seguir de forma previsível tudo o que os EUA querem, estabelece credenciais para que o País aja como árbitro em uma série de temas internacionais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.