Aly Song/REUTERS
Aly Song/REUTERS

China é fundamental para salvar o planeta, mas não consegue se livrar do carvão

Maior emissor de carbono do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes e uma economia ainda em expansão, a estratégia da China para reduzir as emissões pode ser o fator mais importante para prevenir danos irreversíveis e catastróficos à Terra

Lily Kuo e Steven Mufson, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2021 | 20h00

Neste verão, as chuvas em Pequim pareciam não ter mais fim. Em julho, elas forçaram o cancelamento de centenas de voos. Os locais turísticos fecharam e os habitantes tiveram dificuldade para se deslocar ao trabalho. Em agosto, Ellery Lee, consultor de energia e mudanças climáticas na capital, ficou encharcado durante uma chuva torrencial. Ao chegar em casa, ficou chocado ao ver a notícia de que duas pessoas haviam morrido afogadas depois de ficarem presas sob uma ponte nos arredores da cidade.

"A mudança climática está se aproximando cada vez mais das nossas vidas", disse ele, refletindo sobre as enchentes mortais na China central, as temperaturas mais altas em todo o país e as chuvas anormalmente fortes no norte, região tipicamente seca.

Às vésperas de uma crucial cúpula do clima em Glasgow, em novembro, todos os olhos estão voltados para a China. Maior emissor de carbono do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes e uma economia ainda em expansão, a estratégia da China para reduzir as emissões pode ser o fator mais importante para que os países consigam prevenir danos irreversíveis e catastróficos à Terra.

Os líderes chineses prometeram chegar ao pico das emissões antes de 2030 e atingir a neutralidade de carbono até 2060. Mas precisam equilibrar prioridades concorrentes, como a reforma de um modelo econômico arraigadamente dependente da indústria pesada e o gerenciamento do crescimento durante a pandemia. As autoridades também precisam demonstrar ao público chinês que medidas drásticas para reduzir as emissões são do interesse do país e não o resultado de pressões do Ocidente, especialmente dos Estados Unidos.

"Há uma tensão muito delicada entre fazermos tudo sozinhos e darmos sinal de que estamos fazendo tudo por interesse próprio, e não pelos Estados Unidos", disse Li Shuo, consultor sênior do Greenpeace para o Leste Asiático, com sede em Pequim.

O presidente Xi Jinping anunciou sua "dupla meta de carbono" em setembro passado, prometendo "reduzir gradualmente" o uso de carvão a partir de 2026 e nomeando um grupo líder para medir as emissões. Em julho, o enviado especial da China para o clima, Xie Zhenhua, disse que a meta de 2060 significava neutralizar os gases do efeito estufa de todos os setores da economia, não apenas o dióxido de carbono.

Antes da Conferência das Partes, ou COP26, como é conhecida a conferência do clima, o governo está preparando um plano denominado "1+N" para alcançar a neutralidade de carbono.

As promessas climáticas da China vêm no mesmo momento em que as emissões do país e a frota de usinas termelétricas a carvão aumentaram durante a recuperação econômica da pandemia. As indústrias pesadas também estão correndo para obter, antes que os limites sejam estabelecidos no prazo de 2030, a aprovação para projetos com uso intensivo de carbono - em outras palavras, "gastar até o pico", uma prática denunciada por autoridades chinesas.

Mesmo depois de contabilizar as usinas desativadas em 2020, a capacidade movida a carvão da China no ano passado aumentou em 29,8 gigawatts, mais do que os cortes feitos pelo resto do mundo, de acordo com pesquisa divulgada pelo Global Energy Monitor, um think tank americano, e o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA), com sede em Helsinque. No primeiro trimestre deste ano, as emissões de dióxido de carbono chinesas foram 9% maiores do que os níveis pré-pandêmicos, de acordo com o CREA.

"As grandes questões em aberto são: quando exatamente as emissões atingirão o pico antes de 2030 e em que nível elas atingirão o pico?", disse Lauri Myllyvirta, pesquisador do CREA. "O aumento das emissões chinesas simplesmente não ajuda nada, mesmo que a liderança diga que fará muito depois de 2030", disse ele.

Na China, os observadores também estão esperando por detalhes sobre como as autoridades planejam manter o crescimento e, ao mesmo tempo, transformar a economia, especialmente um setor estatal conhecido por indústrias intensivas em carbono, como aço, cimento e alumínio.

"Queremos ver qual será esse nível de pico (...) qual é a meta total?", disse Liu Zhe, diretor de pesquisa, dados e inovação do World Resources Institute China. O governo central está promovendo uma política de "construir primeiro, destruir depois", ou seja, aumentar a capacidade de energia renovável antes de desativar as fontes de combustível fóssil. O carvão, ainda muito mais barato do que as energias renováveis na China, responde por quase 70% da geração de energia no país.

"A redução das emissões tem um custo, que é o PIB. A questão é quanto de custo o governo chinês está disposto a pagar", disse Yu Lihong, professora da Universidade de Ciência e Tecnologia do Leste da China em Xangai, com foco em energia e economia.

"Será muito difícil se livrar do carvão em vinte ou trinta anos. Acho que será difícil até mesmo em cinquenta anos. A presença do carvão é muito grande", disse ela.

Encontrando o oásis

As cisões entre os dois maiores emissores do mundo complicam as perspectivas de sucesso em Glasgow. Quando o presidente Barack Obama e Xi selaram um acordo para limitar as emissões de dióxido de carbono de seus países em 2014, um ano antes da cúpula do clima em Paris, o gesto deu a ambos os líderes uma vitória diplomática e ambiental e forneceu cobertura para outros países seguirem com suas próprias promessas.

A menos de seis semanas das negociações de Glasgow, os Estados Unidos e a China não firmaram um novo acordo. Em vez disso, a relação está rachada por disputas sobre trabalho forçado e outros abusos em Xinjiang, uma repressão à democracia em Hong Kong, o status de Taiwan e as reivindicações territoriais de Pequim no Mar da China Meridional, entre outras questões polêmicas.

Durante a visita do enviado dos Estados Unidos para o clima, John Kerry, a Tianjin neste mês, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, alertou que a colaboração climática não poderia ser um "oásis" no contexto mais amplo de deterioração dos laços entre os Estados Unidos e a China. "Se o oásis for cercado por deserto, mais cedo ou mais tarde ele também se tornará deserto", disse Wang, citando como pontos críticos as sanções contra as autoridades chinesas e os esforços americanos para extraditar o executivo da Huawei Meng Wanzhou.

Kerry disse ao The Washington Post que as autoridades chinesas também pressionaram os Estados Unidos a suspender as sanções aos fabricantes de painéis solares em troca de cooperação para o enfrentamento das mudanças climáticas.

Mas o presidente Biden traz consigo dois importantes conselheiros de Ásia, Kurt Campbell e Rush Doshi, que provavelmente não cederão à China. Campbell escreveu sobre uma "guinada" dos Estados Unidos em direção à Ásia para contrabalançar o poder chinês. Doshi acabou de lançar um livro intitulado The Long Game: China’s Grand Strategy to Displace American Order ("O jogo de longa duração: a grande estratégia da China para substituir a ordem americana", em tradução livre").

"Com a China, as tensões estão maiores do que em qualquer momento das últimas décadas", disse David Sandalow, pesquisador do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia e ex-funcionário da Casa Branca. "Não é um bom augúrio para a cooperação bilateral sobre mudanças climáticas. Dificulta muito os esforços. Não é impossível, mas está muito mais difícil".

Ainda assim, alguns estão otimistas com o fato de Xi ter tirado Xie, o negociador do clima, da aposentadoria para supervisionar a estratégia chinesa. "Se existem duas pessoas que podem chegar a um acordo, essas pessoas são o secretário Kerry e o ministro Xie", disse Sandalow.

Em outras áreas, a China tem sido agressiva em relação à ação climática. É o maior mercado de veículos elétricos do mundo. O país planeja instalar até 65 gigawatts de capacidade de energia solar este ano, de acordo com a associação de fabricação de energia solar da China. Em julho, o país estabeleceu o maior sistema de comércio de carbono do mundo, que Ma Jun, diretor do Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais de Pequim, descreveu como "simbolicamente importante".

O preço do carbono no programa era inferior a US$ 8 a tonelada. A maioria dos economistas do clima acredita que o preço do carbono deve chegar a mais de US $ 100 a tonelada. "Acho que terá impacto no longo prazo", disse Ma.

As autoridades também precisam enfrentar o ceticismo da população em geral. Embora a China seja vulnerável às mudanças climáticas - desde seus portos, centros de exportação e cidades costeiras densamente povoadas até suas regiões sujeitas a enchentes e secas - a população ainda não experimentou o tipo de despertar climático que se viu em outros países.

Críticos, de acadêmicos a blogueiros patriotas, chegam ao ponto de afirmar que os líderes chineses foram enganados por seus colegas ocidentais, os quais estavam tentando conter o progresso da China. A limitada consciência pública sobre a crise climática significa que as autoridades precisam caminhar na corda bamba, de acordo com Dimitri de Boer, representante-chefe do escritório da organização sem fins lucrativos ClientEarth, em Pequim.

"Seria muito perigoso se o público chinês tivesse a percepção de que o governo está fazendo tudo isso por se ver pressionado por atores estrangeiros", disse de Boer.

"Para muitas pessoas na China, ainda é uma coisa distante. O governo diz que devemos [agir], mas as pessoas não sabem como nem por quê". / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.