China e Índia têm a chave do futuro do país

Pequim e Nova Délhi, e não os governos ocidentais, podem pôr fim à junta militar birmanesa

Simon Tisdall, THE GUARDIAN, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

26 de setembro de 2007 | 00h00

Protestos de rua dificilmente vão derrubar sozinhos a cruel junta militar de Mianmá. Isso já foi tentado antes - mais notavelmente em 1988, quando cerca de 3 mil civis podem ter morrido na campanha de repressão. Palavras indignadas do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e de outros líderes ocidentais tampouco terão grande impacto, especialmente se, como no passado, não houver punições concretas para apoiá-las. Igualmente irrelevante para fins práticos é a Associação das Nações do Sudeste Asiático, que não adota ações firmes contra Mianmá, apesar dos inúmeros constrangimentos provocados por seu comportamento. Neste "século asiático", dizem especialistas regionais, a China e a Índia, e não as potências coloniais e imperiais de outrora, têm a chave do futuro de Mianmá - um fato que os EUA, sucessores da Grã-Bretanha como polícia global, relutam em admitir. Os generais só cairão se Pequim e Nova Délhi puxarem seu tapete."A mudança pode ser obtida por meio de uma combinação de protesto interno e pressão internacional", disse Mark Farmaner, da organização reformista Campanha Mianmá da Grã-Bretanha. Mas a atitude da China e da Índia é crucial, acrescentou ele. Ambos os países investem significativamente em projetos de petróleo e gás em Mianmá e, com a Rússia, são grandes fornecedores de armas, ignorando o embargo da União Européia."Seria um erro acreditar que a China está feliz com a junta", disse Farmaner. "Pequim vê Mianmá como um pequeno regime instável que causa problemas crescentes na fronteira, relacionados a drogas e à aids, num momento em que a China tem coisas mais importantes para resolver."Segundo Farmaner, funcionários chineses admitem em conversas privadas que gostariam de ver mudanças, mas por enquanto Pequim continua sendo o principal aliado político da junta. Essa aparente contradição foi explicada em parte no início do ano, quando a China, sedenta de energia, obteve um grande contrato para a exploração de gás, apesar de ter oferecido US$ 2,5 bilhões a menos que a Índia.Já Nova Délhi, disputando influência com a China, ignora os direitos humanos e a democracia e concentra-se em interesses econômicos e temores sobre insurgentes ativos no nordeste da Índia, na região da fronteira birmanesa, afirmou Zoya Phan num relatório da Campanha Mianmá. "A maior democracia do mundo abandonou os democratas de Mianmá. A Índia deveria ter vergonha de fornecer dinheiro e armas a um dos regimes mais brutais do mundo."Embora permaneçam praticamente em silêncio, a China e a Índia não são imunes à opinião internacional, como indicam as recentes mudanças das políticas chinesas para o Sudão e o Zimbábue. E o apoio político e diplomático ao movimento pró-democracia birmanês cresceu rapidamente nas últimas semanas.Apesar dos fracassos anteriores, pode ser que as crescentes pressões externas ajudem a modificar o equilíbrio interno em favor dos manifestantes. Em Mianmá, o que parece diferente desta vez é a ampla aliança que se forma entre o grupo oposicionista Geração 88 (leal à Nobel da Paz Aung San Suu Kyi), líderes budistas influentes e jovens monges militantes, estudantes, funcionários públicos, celebridades da mídia e cidadãos comuns.O que parece assustadoramente familiar são as notícias de que os generais se preparam para esmagar as manifestações antes que elas se transformem numa revolta nacional plena. Isso levanta uma questão prática para Brown e outros líderes ocidentais: se o massacre começar em Mianmá, o que eles vão fazer?

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