China e Rússia se unem em plano de canal na Nicarágua

Países esperam aumentar presença na América Latina com financiamento e controle de bilionária obra interoceânica

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h03

Cem anos depois da construção do Canal do Panamá pelos Estados Unidos, é a vez da China e da Rússia desembarcarem na América Central para construir, na Nicarágua, uma alternativa de ligação entre os oceanos Pacífico e Atlântico.

Na semana passada, os governos nicaraguense e russo fecharam um acordo para que o Kremlin forneça tecnologia avançada para acelerar a escavação do traçado do canal. Diplomatas russos confirmaram ao Estado que a participação é considerada "estratégica" para Moscou, que decidiu promover uma aproximação significativa com a América Latina.

O projeto será conduzido por uma empresa chinesa com sede em Hong Kong, que manterá o controle sobre a construção durante pelo menos 50 anos, com a possibilidade de renovação do contrato por mais meio século.

Há mais de um século, a construção do Canal da Nicarágua é alvo de polêmicas. Antes da própria construção do Canal do Panamá, no início do século 20, engenheiros consideravam que o local mais eficiente para viabilizar a ligação entre os dois oceanos seria, de fato, a Nicarágua. No entanto, por interesses políticos, o Congresso americano acabou optando pela via panamenha.

O custo estimado das obras na Nicarágua, cujo início está previsto para dezembro, chega a US$ 40 bilhões - valor que representa quase quatro vezes o PIB do país -e o maior investidor é o grupo chinês HKND. O projeto começou a ganhar corpo em junho de 2013 quando o Congresso nicaraguense, composto em sua maior parte por aliados do presidente Daniel Ortega, aprovou o acordo com a HKND.

Pelo acordo, os chineses terão de pagar ao Estado centro-americano US$ 10 milhões por ano para usar o canal na primeira década de operações. A partir do 11.º ano de operação, 1% da renda do canal ficará com o governo da Nicarágua - essa taxa será elevada anualmente. O projeto também prevê a construção de dois portos, um aeroporto e uma área de livre comércio.

A via nicaraguense deve ter uma largura três vezes maior do que a do Canal do Panamá, começaria no desembocar do Rio Brito, no Oceano Pacífico, passaria pelo Lago Nicarágua e chegaria até Punta Gorda, na Costa caribenha do país.

O traçado de 278 quilômetros foi aprovado pelo governo no dia 7 de julho e, cinco dias depois, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma parada surpresa em Manágua durante sua passagem pela América Latina antes da cúpula do Brics.

"A Nicarágua é uma aliada muito importante da Rússia", afirmou Putin sobre sua relação com o segundo país mais pobre do Hemisfério Ocidental. Durante a visita, Ortega chegou a dizer que a Nicarágua "era a terra de Putin".

Na ocasião, a visita fez aumentar a suspeita de que Moscou estaria interessado no canal, tese que foi rejeitada pelo general Álvaro Baltodano, conselheiro econômico de Ortega. "Isso são suposições", declarou.

Menos de dois meses depois, porém, o Kremlin anunciou que faria parte do projeto e, segundo diplomatas, não se exclui a possibilidade desse envolvimento abrir espaço para uma presença militar mais forte de russos na América Latina.

Oficialmente, porém, os russos insistem em falar apenas dos aspectos comerciais da parceria. "A construção do canal é um assunto econômico e a implementação de tal projeto exige o uso de tecnologias modernas para garantir a segurança", declarou o russo Vladimir Kuvshinov, diplomata de alto escalão russo e hoje secretário da Organização Internacional de Defesa Civil, entidade com sede em Genebra e comandada por Moscou.

No último dia 9, o vice-chanceler nicaraguense, Luis Alberto Molina, também esteve em Moscou para debater o envolvimento russo. "Esperamos finalizar até dezembro os aspectos técnicos da construção", garantiu o vice-primeiro-ministro à agência oficial russa Itar-Tass.

Dúvidas. A construção de uma canal alternativo ao do Panamá - a menos de 600 quilômetros - ainda gera questionamentos sobre sua viabilidade e sobre quem estaria, de fato, financiando o projeto. Oficialmente, a empresa chinesa HKND, responsável pela obra, é do bilionário Wang Jing. Mas, até hoje, seus negócios sempre estiveram relacionados com o setor de telecomunicações.

Outra questão não explicada diz respeito ao fato de a Nicarágua ter dado o contrato para Wang sem fazer uma licitação pública internacional transparente. O principal líder da oposição nicaraguense, Eliseo Nuñez, qualificou a obra de "um dos maiores esquemas de corrupção do mundo".

Até o momento, Wang não revelou quem são os investidores que apostarão no projeto, alimentando suspeitas de que o real apoio venha do governo chinês, ávido por mais espaço na América Latina. No entanto, a Nicarágua ainda reconhece Taiwan como um país e mantém relações diplomáticas com a ilha, o que impede Pequim de manter uma presença oficial em Manágua.

Mas as maiores dúvidas se referem à viabilidade econômica do canal, que concorrerá com a expansão do Canal do Panamá, prevista para 2015.

Para o Instituto de Engenheiros Civis (ICE, na sigla em inglês), com sede em Londres, não existe hoje motivo comercial para construir uma nova passagem interoceânica. Num relatório preparado pela entidade, especialistas admitem que houve no passado uma demanda crescente para ligar as exportações da China à Costa Atlântica dos EUA. Eles alertam, porém, que hoje não existe sequer fila de barcos Panamá para justificar um segundo canal.

Viabilidade. Na semana passada, em Madri, o presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, tentou minimizar o canal concorrente. "A Nicarágua está em seu direito. Mas economicamente não é um projeto viável", declarou. Assessores do governo nicaraguense, porém, garantem que o futuro comércio de gás e petróleo da costa americana para a Ásia não poderá usar nem mesmo o Canal do Panamá ampliado.

Em 2013, a Maersk Line, maior operadora de contêineres do mundo, já desviou suas rotas entre Ásia e EUA do Panamá para o Canal de Suez depois de comprar novos navios, maiores - e fora das dimensões - suportada pelos rota panamenha.

Em julho, um funcionário da empresa quebrou o silêncio e admitiu que o Canal da Nicarágua seria uma boa ideia. "Construir um canal na Nicarágua parece fazer sentido", declarou Keith Svendsen, chefe de operações da Maersk, a um jornal dinamarquês. "Economizaremos 800 quilômetros entre Nova York e Los Angeles." Dias depois, a empresa divulgou comunicado negando que estivesse dando seu aval ao projeto. "Não temos informações suficientes no momento para avaliar o Canal da Nicarágua", afirmou a nota.

Na Nicarágua, o debate também ganha novos contornos. Ambientalistas acusam o governo não ter feito uma avaliação do impacto ambiental da obra. Já os moradores de regiões que serão desapropriadas foram pegos de surpresa em agosto, quando técnicos HKND passaram a visitar locais para montar uma lista das propriedades que teriam de ser desapropriadas. Os técnicos foram acompanhados por soldados do exército.

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