REUTERS/ Ann Wang
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China e Taiwan, ao lado dos EUA, a caminho da guerra?; leia análise

Tensão vem se agravando e perspectivas não são positivas

Gunther Rudzit*, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 15h00

As relações entre os Estados Unidos e a China vêm piorando nos últimos anos. O alerta de Chiu Kuo-cheng, ministro da defesa de Taiwan, de que a China terá capacidade de realizar uma invasão em larga escala à ilha, em 2025, serviu para tensionar ainda mais o clima entre as duas potências.

Hoje, além da disputa por soberania sobre a ilha taiwanesa, a China tem disputas territoriais marítimas com vários vizinhos, aliados e apoiados pelos Estados Unidos. A potência ocidental defende que o espaço reclamado por Pequim são águas internacionais, fator agravante dessa disputa.

A tensão entre China e EUA começou a crescer após a crise do Estreito de Taiwan, em 1995-1996, que teve como causa o status político da ilha. Dois fatos resultantes dela devem ser relembrados. Primeiro, um general chinês conversou com um jornalista americano, afirmando que ele tinha certeza que Washington não trocaria Los Angeles por Taipei.

Segundo, as Forças Armadas da China não conseguiram localizar navios americanos que navegaram pelo estreito durante a crise. O recado foi claro, que, por Taiwan, o Partido Comunista Chinês está disposto a ir à guerra, e, para tanto, teria que desenvolver a capacidade militar de impedir a marinha americana de operar perto do seu litoral.Desde então Pequim vem investindo fortemente em vários setores tecnológicos para desenvolver a estratégia A2AD, sigla em inglês para Anti-Acesso Negação de Área.

Ela consiste em criar uma bolha de negação do uso do mar próximo ao seu litoral, por meio da utilização de capacidade espacial, eletrônica, missilística e naval. Estrategistas americanos previram que os chineses conseguiriam implementar tal estratégia por volta de 2030, mas, devido à crise de 2008-09, a capacidade chinesa teria sido adiantada em cinco anos, tendo em vista os cortes orçamentários que os EUA tiveram que fazer. Não é à toa a declaração do ministro da defesa taiwanês.

É inevitável que os dois países cheguem à guerra? Esta pergunta é a que o professor Graham Allison, de Harvard, fez em livro publicado em 2017, tendo por base a teoria chamada de Armadilha de Tucídides. Este conceito, baseado na Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, afirma que quando uma nova potência começa a desafiar a potência hegemônica, há grande chance de haver guerra entre as duas. Ele discute dezesseis casos históricos em circunstâncias parecidas, sendo que em somente quatro não houve conflito armado. Portanto, as perspectivas não são boas.

Para Allison, há grande chance de evitar o conflito se os dois governos souberem utilizar diversas posturas e políticas. Contudo, desde a publicação do livro, os dois lados têm seguido o caminho oposto, fazendo com que esta realidade tenha que ser levada cada vez mais a sério.

Se a guerra vier a ocorrer, os primeiros atos não serão militares, e sim nos âmbitos econômico e cibernético. Eu acredito que a forma chinesa de tentar dissuadir os americanos a não se oporem militarmente seguiria a visão que o estrategista chinês Sun Tzu preconizou há mais de dois mil anos, de ganhar sem lutar.

* É professor de relações internacionais da ESPM, especialista em Segurança Nacional e Internacional

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