China elogia pacto sem desconsiderar novas sanções

Regime aposta em estratégia de 'duas vias', que combina diálogo e pressão, para conter programa nuclear iraniano

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2010 | 00h00

O porta-voz da chancelaria chinesa, Ma Zhaoxu, afirmou ontem que a China sempre defendeu uma "estratégia de duas vias" em relação à questão nuclear do Irã, expressão que se refere à adoção simultânea de negociação e pressão. Ao mesmo tempo, Ma afirmou que a China dá as "boas-vindas" ao acordo fechado entre Irã, Brasil e Turquia e espera que o pacto ajude a resolver as tensões por meio do diálogo e da negociação.

"Nós esperamos que as ações do Conselho de Segurança das Nações Unidas ajudem a manter o sistema internacional de não-proliferação de armas nucleares e a estabilidade no Oriente Médio", acrescentou Ma, sem esclarecer a que tipo de ações se referia.

A China é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, ao lado de Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha e França. Nessa condição, pode vetar qualquer resolução, ainda que ela tenha sido aprovada por todos os outros integrantes do conselho.

A declaração assinada por Irã, Brasil e Turquia na segunda-feira prevê que o país islâmico troque urânio por combustível nuclear para um reator de pesquisas médicas, o que em tese evitaria que o país dominasse toda a tecnologia de enriquecimento do material, considerado passo essencial para a construção de um arsenal nuclear.

Apesar de avaliar que o acordo aumentou as chances de uma solução negociada para o impasse, Li Guofu, diretor de estudos do Oriente Médio do Instituto de Estudos Internacionais da China, afirmou que ainda é "muito cedo" para saber a posição que Pequim adotará em relação à possibilidade de adoção de novas sanções contra o Irã.

Fracassos anteriores. Li Weijian, do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, ressaltou que a China já votou em três ocasiões a favor da adoção de sanções contra o Irã - o que evidencia a importância do viés da "pressão" na tradicional estratégia de duas vias defendida por Pequim. O problema, disse ele, é que esse caminho não funcionou no passado. "Por isso, a China prefere não fazer isso, a menos que seja inevitável, porque só a aplicação de sanções não resolve o problema", observou.

A China tem posição claramente contrária à posse de armas nucleares pelo Irã, mas possui relações econômicas cada vez mais próximas com o país persa. A mais importante delas é na área energética: o Irã é um dos maiores exportadores de petróleo para a China e responde por 11% das importações do produto pelo país asiático.

Além disso, estatais chinesas possuem investimentos bilionários no Irã para a exploração de gás e petróleo. O temor de Pequim é que uma nova rodada de sanções afete seu relacionamento comercial com o governo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

REPERCUSSÃO PELO MUNDO

THE WASHINGTON POST

Golpe diplomático

Diz, em editorial, que o acordo assinado pelo Irã na segunda-feira é ruim e permite a Teerã dar um "golpe diplomático". Para o jornal, o Irã "explorou, com habilidade, a ânsia dos líderes brasileiro e turco de provar que são atores globais".

THE NEW YORK TIMES

Consenso frágil

Afirma que o entendimento pode ter minado o frágil consenso sobre as sanções contra o regime iraniano. Ontem, abriu um fórum de leitores em seu site sobre "o ceticismo a respeito do acordo" negociado por Brasil, Turquia e Irã.

LE MONDE

Vitória iraniana

Na capa, anuncia o acordo como uma "vitória da diplomacia iraniana". Também destaca que o Irã continuará a desenvolver seu processo de enriquecimento de urânio a 20% e o novo entendimento dificulta novas sanções contra o país persa.

THE GUARDIAN

Reação fria

Destaca a "fria reação" de líderes dos EUA e Europa. Diz que será difícil para tais líderes colocar-se contra o acordo, já que ele tem por base uma proposta da AIEA, mas destaca que o entendimento não barra o programa nuclear iraniano.

EL PAÍS

Aposta arriscada

Qualifica o acordo como uma "aposta arriscada" de Lula. Diz que se a estratégia tiver êxito, o Brasil terá "afiançado seu papel internacional". Caso contrário, terá contribuído para piorar o problema e pode comprometer suas relações com os EUA.

IRNA

Arrogância derrotada

O site da agência de notícias do Irã destacou ontem uma declaração de Ahmadinejad: "A resistência dos amantes da paz venceu o imperialismo e a arrogância." O site reproduziu ainda imagens de Lula com o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei.

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Irritando a Casa Branca

1.

Por que os EUA estão insatisfeitos com o acordo?

Porque ele permite que o Irã siga enriquecendo urânio.

2.

Como saber se o Irã

cumprirá o acordo?

O texto não fala nada sobre futuras inspeções, impedindo que a AIEA verifique o cumprimento do pacto.

3.

Se o pacto é igual ao proposto em outubro, por que agora os EUA são contra?

Antes, a quantidade de urânio a ser trocada no exterior representava 70% do material estocado pelo Irã. De lá para cá, o país enriqueceu mais urânio. Hoje, a mesma quantidade a ser trocada representa apenas a metade do estoque iraniano.

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