Noel Celis/AFP
Noel Celis/AFP

China encerra bloqueio de Wuhan, mas vida normal ainda é um sonho distante

Recuperação da cidade onde teve início pandemia será observada por um mundo em busca de lições sobre como as populações passam pela dor e pela calamidade de uma magnitude tão impressionante

Raymond Zhong e Vivian Wang / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 18h13

WUHAN - A China encerrou nesta quarta-feira (hora local, terça-feira em Brasília) o confinamento na cidade de Wuhan, cidade onde surgiu o coronavírus pela primeira vez e forte símbolo de uma pandemia que matou dezenas de milhares de pessoas, abalou a economia global e provocou agitações em todo o mundo. 

Mas a cidade que reabriu após mais de 10 semanas está profundamente marcada. Sua recuperação será observada por um mundo em busca de lições sobre como as populações passam pela dor e pela calamidade de uma magnitude tão impressionante.

Em Wuhan, a doença e a morte atingiram centenas de milhares de vidas, imprimindo-as com trauma que pode durar décadas. As empresas, mesmo as que reabriram, enfrentam um caminho difícil pela frente, com uma lentidão que provavelmente persistirá por algum tempo. Nos bairros, as autoridades ainda continuam a regular as idas e vindas de seus moradores, sem uma volta à normalidade à vista.

As autoridades chinesas isolaram Wuhan, um centro industrial de 11 milhões de pessoas, no fim de janeiro, numa frenética tentativa de limitar a propagação do surto. Na época, muitos viram a decisão como um passo extremo, que só poderia ser possível em um sistema autoritário como o da China. Mas com o agravamento da epidemia, governos de todo o mundo promulgaram uma variedade de restrições rigorosas aos movimentos de seus cidadãos. 

Cerca de 1,4 milhão de infectados e 80 mil mortos foram relatados em todo o mundo - números que estão subindo rapidamente e as autoridades dizem que subestimam muito a verdadeira extensão da pandemia. O contágio diminuiu em países como Itália e Espanha, mas continua a se espalhar rapidamente em outros lugares do mundo, incluindo os Estados Unidos, que se aproximam de 400 mil infecções conhecidas.

As notícias são acompanhadas de cenas de hospitais transbordando na cidade de Nova York, corpos não coletados nas ruas do Equador, atualizações sobre a condição do primeiro-ministro Boris Johnson, dp Reino Unido, que está internado em terapia intensiva, e avisos de especialistas de que a epidemia pode estar explodindo, de uma maneira não detectada, nas partes mais pobres do mundo.

A maior parte de Europa, Brasil, Índia, Estados Unidos e muitos outros lugares impuseram ordens para que as empresas fechem as portas e a maioria das pessoas fique em casa, prejudicando abruptamente as economias e expulsando milhões de pessoas do trabalho.

A medida completa do sacrifício que tais políticas envolvem - em empregos e renda perdida, em vidas interrompidas - pode ser tomada primeiro em Wuhan.

A reabertura de quarta-feira ocorreu após apenas três novos casos de coronavírus terem sido relatados na cidade nas três semanas anteriores e um dia após a China não ter relatado novas mortes pela primeira vez desde janeiro. Os controles das viagens de saída foram oficialmente suspensos logo após a meia-noite na China.

Muitas pessoas que estavam em Wuhan em 23 de janeiro ficaram presas, quando as autoridades anunciaram que ninguém poderia sair da cidade até nova ordem. 

Agora, as pessoas podem sair depois de apresentar às autoridades um aplicativo de telefone sancionado pelo governo que indica - com base em seus endereços residenciais, viagens recentes e históricos médicos - se são ou riscos de contágio.

Imagens de agências de notícias estatais no início da quarta-feira mostraram uma corrida de carros passando pelas cabines de pedágio nos arredores de Wuhan imediatamente após o levantamento das restrições.

A operadora ferroviária nacional da China estimou que mais de 55 mil pessoas deixariam Wuhan de trem na quarta-feira, de acordo com uma emissora estatal.

Dentro da cidade, no entanto, ainda existem regras rígidas para indivíduos e empresas para impedir que o vírus recupere sua força. As autoridades continuam pedindo que todos fiquem em casa o máximo possível. As escolas ainda estão fechadas.

Mas muitas pessoas em Wuhan nem precisam ser instruídas a continuar se isolando. A experiência da morte e quase morte deixou feridas psíquicas. Dos mais de 80 mil casos relatados pelo vírus na China continental, quase dois terços ocorreram em Wuhan.

"O pessoal de Wuhan experimentou em primeira mão", disse Yan Hui, uma nativo de Wuhan e executiva de vendas de cerca de 50 anos que se recuperou do coronavírus. "Nossos amigos ficaram doentes. Nossos amigos e parentes de nossos amigos morreram." 

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Nos últimos dias, mais e mais lojas foram reabrindo, muitas vezes montando balcões nas ruas para que os clientes pudessem comprar vegetais, bebids, cigarros e outras mercadorias sem precisar entrar no estabelecimento. Nos parques ao longo do Rio Yangtze, um número crescente de famílias se aventurou a aproveitar o sol e o ar fresco.

Os residentes mais velhos começaram a se reunir novamente em pequenos grupos para conversar ou jogar rodadas de xadrez chinês. As crianças são uma visão mais rara e sempre parecem estar sob a vigilância cautelosa dos pais.

Os ônibus públicos e o sistema de metrô foram reiniciados, embora pareçam ter poucos passageiros.

As empresas de Wuhan têm chamado cautelosamente seus funcionários de volta ao trabalho, contribuindo para o renascimento da vida na cidade.

Em Wuhan, quase 94% das empresas - quase 11 mil no total - retomaram as operações, disse Hu Yabo, vice-prefeito da cidade, em uma recente entrevista coletiva. Para grandes empresas industriais, a taxa excedeu 97%. Para as empresas de serviços, foi de 93%.

 

No entanto, não está claro quantos negócios eles estão realmente fazendo. Nas empresas industriais de Wuhan, apenas 60% dos funcionários trabalham, e o consumo de eletricidade é cinco vezes menor do que era no ano passado, disse Dang Zhen, outro funcionário da cidade.

O empreendimento local da Honda voltou a produzir em plena capacidade, disse Hu. A Huawei, a gigante chinesa da tecnologia, disse nas mídias sociais que os funcionários do seu centro de pesquisa em Wuhan estavam voltando ansiosamente para o trabalho "enquanto uma nova onda de positividade pulsa em torno do edifício".

No entanto, a melancolia sobre a economia local continua generalizada. Grande parte do setor fabril da China está sofrendo com a pandemia que diminui a demanda no exterior. À medida que as empresas diminuem seus gastos com equipamentos e escritórios, os efeitos se espalham pelo resto da economia.

Para muitas pequenas empresas, a perda de renda pode levar a mais problemas. Com pouco dinheiro, as empresas que demitiram trabalhadores podem não ser capazes de recontratá-los imediatamente. Outros se preocupam com estoques de bens não vendidos, custos de manutenção de equipamentos e disputas alfandegárias, à medida que a pandemia continua atrapalhando o comércio em todo o mundo.

Este mês, um grande grupo de proprietários de restaurantes em Wuhan escreveu uma carta ao governo da cidade pedindo subsídio de aluguel, empréstimos subsidiados e apoio salarial. A epidemia, disseram eles, foi um "desastre total" para o setor.

No auge da epidemia, Liu Dongzhou pensou em desistir de sua empresa, que produz bolinhos de peixe, frango desfiado e outros alimentos congelados e processados. Agora, ele espera reiniciar as operações na próxima semana - mas espera demitir um quinto de seus 80 funcionários.

Liu, de 45 anos, ouviu muita conversa sobre políticas governamentais para ajudar pequenas empresas. Mas ele não acredita que haverá algo disponível para ele no curto prazo.

Mesmo que as autoridades permitam que as pessoas deixem Wuhan, Liu disse que seu próprio bairro recentemente restringiu os movimentos dos moradores. Quarta-feira não parece ser um marco. "Para uma pessoa comum, se você tira ou não tira o bloqueio, não há muita diferença", disse ele./ NYT 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.