Andy M. Kin/U.S. Air Force/NYT
Andy M. Kin/U.S. Air Force/NYT

China envia porta-aviões a região em litígio; EUA sobrevoam área ‘proibida’

Washington adverte que não cumprirá exigências de identificação feitas por Pequim após fixar ‘zona de defesa aérea’ e aviões B-52 americanos efetuam manobras em espaço aéreo sobre Ilhas Diaoyu/Senkaku

Diogo Ferreira Gomes, Especial para o Estado/Pequim e Cláudia Trevisan, correspondente em Washington,

26 de novembro de 2013 | 22h55

Ao mesmo tempo em que a Marinha chinesa despachava na terça-feira, 26, seu primeiro e único porta-aviões para realizar exercícios militares de guerra no Mar do Sul da China, onde desde sábado Pequim exige identificação dos aviões que sobrevoam a região, duas aeronaves B-52 americanas atravessaram a área em aberto desafio à restrição chinesa.

A "zona de defesa aérea" foi estabelecida pela China sobre ilhas que o país disputa com o Japão - que Pequim chama de Diaoyu e Tóquio de Senkaku -, elevando a tensão na região. O governo chinês passou a exigir o envio de planos dos voos que passassem pela região, a abertura de canais de comunicação de rádio e a clara identificação da nacionalidade da aeronave. As autoridades de Pequim afirmaram que poderiam adotar ações militares contra aviões que desobedecessem às exigências.

"Esse anúncio da China não vai de nenhuma maneira mudar a forma pela qual os EUA conduzem suas operações militares na região", declarou no sábado o secretário de Defesa americano, Chuck Hagel. Segundo ele, a decisão eleva os riscos de "desentendimentos e erros de cálculo" na área.

A China adotou uma posição mais agressiva na disputa pelas ilhas depois que o Japão nacionalizou o território em setembro de 2011, para evitar que elas fossem vendidas a um grupo nacionalista, o que poderia ter um impacto ainda mais explosivo para a relação bilateral.

Desde então, Pequim passou a atuar como se as ilhas estivessem em seu território, enviando missões de patrulhamento para a região. Nessa direção, o porta-aviões Liaoning zarpou do Porto de Qingdao, no leste chinês, sob a escolta de dois destróieres e duas fragatas de mísseis. Ele fará exercícios militares em uma parte do Mar do Sul que a China disputa com Vietnã e Filipinas.

Os chineses operam o navio de guerra desde setembro do ano passado e limitavam as manobras - menos complexas das que começarão a fazer - ao Mar Amarelo. O Liaoning é de fabricação soviética (1988) e a China o comprou para usá-lo como modelo para a classe de porta-aviões que planeja construir.

PREOCUPAÇÃO

A Austrália convocou o embaixador chinês Ma Zhaoxu para expressar seus receios com a ampliação da zona de defesa aérea à seção do Mar do Sul da China onde ficam as ilhas. "A Austrália faz clara oposição a toda medida coerciva ou unilateral para mudar o status quo no Mar do Sul da China", declarou a ministra de Assuntos Exteriores, Julie Bishop.

Especialista em política externa e de segurança da China, Bonnie Glaser, do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), acredita que a repercussão da criação da zona de restrição tenha tomado uma rota bem diferente do que Pequim planejava. "Só nos EUA a reação negativa veio de três esferas: Departamento de Estado, Departamento de Defesa e Casa Branca. Duvido que a China estivesse prevendo essas críticas todas. Não é interesse dela ter problemas com tantos países ao mesmo tempo", afirmou a analista.

JAPÃO DIVIDIDO

A exigência da China de que os aviões sobre o Mar do Sul apresentem previamente seus planos de voo fez os japoneses tomarem duas rotas diferentes. O governo japonês, desde o anúncio das novas imposições, disse que não as aceitaria porque eram perigosas, mas ontem, as duas maiores companhias aéreas do Japão decidiram acatar as exigências chinesas.

A Japan Airlines (JAL) e a All Nippon Airways (ANA) alegaram que apresentarão os planos de voo em nome da segurança dos passageiros. No sábado, Pequim tinha advertido que poderia adotar intervenções armadas se os aviões não se identificassem. "A segurança é nossa prioridade. Devemos descartar toda a possibilidade de um cenário catastrófico", afirmou um representante da ANA.

As autoridades japonesas em seguida disseram que as duas empresas tomaram essa decisão sem consultar as autoridades e não deveriam levá-la adiante. "As medidas adotadas pela China não são válidas para nosso país e as companhias devem continuar voando de acordo com as regras anteriores", afirmou o secretário-geral do governo, Yoshihide Suga. Companhias de Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul acataram a decisão chinesa quase imediatamente.

Na terça-feira, no entanto, nos Estados Unidos informaram que no dia anterior dois aviões militares seus tinham sobrevoado a região das ilhas sem avisar previamente às autoridades chinesas.

CHINA UNIDA

Uma pesquisa divulgada ontem pelo jornal Global Times, sob controle do Estado, mostrou que 85% dos chineses eram favoráveis à zona de identificação, por mais que acirrasse as disputas territoriais com Japão e outros países vizinhos. O estudo ouviu mais de mil adultos.

Segundo a publicação do Partido Comunista, 53,6% dos entrevistados acreditam que a zona aérea ampliada ajudará a China na disputa com o Japão pelas ilhas. Só 4,3% achavam o contrário.

Apesar da alta aprovação à limitação aérea, 90% dos participantes disseram que a China deve apenas desviar os aviões que não se identificarem.

"A questão é sob que circunstâncias a China vai decidir interceptar os aviões. Provavelmente não farão isso o tempo todo. Já interceptaram aviões de vigilância dos EUA perto do espaço aéreo chinês, mas no caso japonês, principalmente no que diz respeito a caças, o risco de acidente é muito maior. Com pilotos japoneses e chineses em aviões de guerra, a possibilidade de uma colisão é enorme", afirmou a especialista Bonnie Glaser.

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